Fruta nativa do Cerrado, a guabiroba quase desapareceu na cidade de São Paulo

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Tempo de guabiroba era a alegria de muitos paulistanos no passado. Os campos cerrados, nativos na cidade, ficavam com arbustos repletos dessa pequena goiabinha amarela de casca lisa, muito doce e não enjoativa, e bem diferente de seus primos goiaba e araçá.

Com o crescimento da metrópole nos últimos 50 anos, os campos cerrados praticamente desapareceram, e com eles, os pés de guabiroba (Campomanesia pubescens), já que é fruta “do mato” e não cultivada. Assim, sobreviveu na memória da infância dos mais velhos.

Com a moda crescente de plantas estrangeiras nos jardins e paisagismo, hoje é uma super raridade. Em São Paulo, você pode experimentar itens como trufas negras ou caviar beluga,  mas guabiroba não, por mais dinheiro que tenha.

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Onde sobrou os arbustos de guabiroba em São Paulo? Julgo que menos de 20 exemplares na malha urbana, espalhados nos trechos de cerrado do Campus da USP no Butantã (vários foram destruídos nesse ano pela absurda obra do Centro de Convenções), no Parque do Carmo e em um grande terreno baldio no bairro do Morumbi, perto do Clube Paineiras.

Coletamos uma pequena parte desses frutos (70% ficou para a fauna manter a espécie) e plantamos em nosso viveiro. Se der certo, a ideia é levá-la de volta para alguns parques da metrópole e reapresentá-la aos paulistanos.

Um pé de guabiroba muito antigo, sobrevivente da época em que toda a região do Butantã e Morumbi eram campos cerrados nativo nos campos cerrados paulistanos

Um pé de guabiroba muito antigo, sobrevivente da época em que toda a região do Butantã e Morumbi eram campos cerrados 

Ricardo Cardim

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Bromélias, orquídeas e outras epífitas nas copas das árvores centenárias paulistanas – relíquias de uma Mata Atlântica desaparecida

Na Zona Sul

Na Zona Sul, no bairro da Granja Julieta, vive isolada esta centenária copaíba, repleta de epífitas nativas na copa. Trata-se de uma sobrevivente da  Mata Atlântica das margens do Rio Pinheiros e hoje está em um terreno privado.

Árvores muito antigas na Mata Atlântica costumam ter uma complexa biodiversidade nas suas copas, que formam um outro “andar de floresta” constituída por plantas epífitas – que não são parasitas – e abrigam uma fauna especializada. São orquídeas, bromélias, cactos, imbés, samambaias e várias outras aproveitando o microclima e a luminosidade proporcionados pela árvore.

Da vegetação original da cidade de São Paulo – que em um passado não muito distante – era formada por densas florestas em forma de capões (ilhas), sobreviveram algumas árvores seculares.  Muitas vezes as únicas remanescentes de uma floresta com milhares de árvores. Exemplos são as raras copaíbas e jequitibás-brancos eleitas na campanha “Veteranas de Guerra” da SOS Mata Atlântica.

Poucos desses já escassos exemplares antigos tem na sua copa uma grande diversidade de epífitas nativas, que representam as últimas sobreviventes das florestas paulistanas. É como se uma árvore fosse capaz de suportar um “micro mundo” repleto de pequenas raridades biológicas, que já perderam todos os outros da mesma espécie na metrópole, e são os últimos repositórios da genética paulistana.

Essas “relíquias da biodiversidade” infelizmente seguem não pesquisadas e ameaçadas pelo desconhecimento, e poderiam gerar ótimos trabalhos de pesquisa acadêmica, além da possibilidade de serem reproduzidas e reintroduzidas na metrópole.

Copa

Copa com inúmeras espécies diferentes.

No Colégio Friburgo, Avenida João Dias, Zona Sul,

No Colégio Friburgo, Avenida João Dias, Zona Sul, ainda existem várias bromélias hoje raras na metrópole sobre essa secular copaíba.

O jequitibá-branco do Parque Trianon também reserva uma biodiversidade p´ropria e não observada nas outras árvores antigas do Parque

O jequitibá-branco do Parque Trianon também reserva uma biodiversidade própria e não observada nas outras árvores antigas do Parque

Ricardo Cardim

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Nascentes de água, trechos de Cerrado, Mata Atlântica e antigos caminhos indígenas e de tropeiros – o necessário Parque Fonte Peabiru em São Paulo

Seculares, os arcos de pedra resistem junto com a água limpa ao descaso e ameaças.

Seculares, os arcos de pedra resistem junto com a água limpa ao descaso e ameaças.

Na mais severa seca da cidade de São Paulo a água continua correndo, transparente, entre dois arcos antigos de pedras, obra provavelmente do século XVIII. Em volta, um grande terreno de 39.000 m² repleto de árvores da Mata Atlântica e trechos de Campos Cerrados em meio ao adensado bairro do Butantã na Zona Oeste.

Esse cenário, em uma cidade preocupada com sua água, meio ambiente e história, certamente seria um parque público para toda a população, mas segue abandonado e ameaçado por lixo, invasões e lançamentos imobiliários, embora o terreno seja tombado desde 2012. 

Estudos realizados pela Associação Cultural do Morro do Querosene, que lutou e conseguiu o tombamento do terreno, mostram que possivelmente nessa área existia um ponto de parada de bandeiras e tropeiros na nascente, que fazia parte do antigo caminho indígena do Peabiru, esse anterior ao século XVI.

Observando atentamente a construção dos arcos em pedra que abrigam a nascente e comparando com construções históricas paulistanas ainda existentes, fica nítido que ele pertence a outra época, colonial. Prospecções arqueológicas futuras naquele local poderão certamente fornecer pedaços importantes do passado de São Paulo e Brasil.

Trecho de Cerrado tipo "Campos de Piratininga" que margeiam o terreno da nascente. Paisagem secular.

Trecho do raro Cerrado tipo “Campos de Piratininga” que margeiam o terreno da nascente. Paisagem secular. A planta florida à direita é um araçá-do-campo (Psidium guineense), arbusto frutífero que nomeou o caminho e depois cemitério do Araçá. O capim em floração, uma espécie que quase desapareceu da metrópole (Andropogon leucostachyus) .

Outro aspecto valioso do terreno para a história e meio ambiente da metrópole são trechos preservados de campos cerrados, remanescentes dos antigos “Campos de Piratininga” vegetação nativa que nomeou São Paulo nos primeiros séculos, e que resgatam as paisagens que os antigos viajante de séculos atrás vivenciaram quando paravam na bica.

Argumentos, água e fatos não faltam para justificar a desapropriação da área e entregar esse parque público interessantíssimo e fundamental para a população, o Parque das Fontes do Peabiru.

Na cidade que corre o risco de secar, água limpa em abundância.

Na cidade que corre o risco de secar, água limpa em abundância.

Outra surpresa no terreno - um pomar centenário com as maiores mangueiras que existem na cidade de São Paulo

Outra surpresa no terreno – um pomar centenário com as maiores mangueiras que já vi na cidade de São Paulo, e que estavam carregadas de frutos. Sobreviventes possivelmente de uma antiga chácara do local.

Para mais informações sugiro o site:

http://www.fontedopeabiru.com.br/1135-2/

Endereço do local:

Entre a Avenida Corifeu de Azevedo Marques, Rua Santanésia e Rua Padre Justino (no começo dessa rua tem uma curta rua sem saída com um pequeno portão, a rua da fonte, que acessa o local).

Meus agradecimentos ao pessoal do Rios e Ruas e a Associação Cultural do Morro do Querosene.

Ricardo Cardim

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Pavilhão Japonês do Ibirapuera ganha jardim com plantas raras e em extinção

Na semana da Árvore, São Paulo vai ganhar de presente um jardim feito exclusivamente com espécies nativas da Mata Atlântica e Cerrado do Município, incluindo espécies raras e em extinção. A área verde tem uma proposta simbólica, representar a amizade entre o Brasil e Japão.

Jardim nativo no Pavilhão Japonês do Ibirapuera - projeto de Ricardo Cardim

Comemorando os 60 anos do Pavilhão Japonês do Parque do Ibirapuera, o jardim brasileiro foi projetado e realizado por nossa equipe e viabilizado com patrocínio da Honda, e fica em frente ao jardim Zen típico do Japão, procurando trazer a união das terras, das duas paisagens distintas que se tornaram familiares para ambos os povos.

Após uma longa jornada pelos oceanos, os imigrantes japoneses encontraram  no Brasil de mais de um século atrás, um outro mundo, ainda coberto pela exuberante Mata Atlântica e Cerrado, de aspecto tão diferente das paisagens do Japão. Novas plantas e animais em um grande território praticamente desconhecido, até mesmo para os  brasileiros. Nessas terras criaram fortes raízes, aqui simbolizadas nos dois jardins, que representam a amizade entre as nações.

Entre as plantas utilizadas, temos:

cambuci (Campomanesia phaea) – árvore frutífera da Mata Atlântica que já foi muito comum nos antigos pomares. Seus frutos em forma de “disco-voador” são perfumados e suculentos.

palmeira-prateada (Lytocarium hoehnei) – essa rara e bela palmeira só existe originalmente na região metropolitana de São Paulo e está ameaçada de extinção devido a urbanização. Vive nas áreas sombreadas da Mata Atlântica, e no Jardim Honda temos 3 exemplares cultivados em viveiro a partir de sementes.

araçá-do-campo (Psidium guineense) é uma das frutas que os japoneses encontraram nos Cerrados do Estado de São Paulo e que desapareceram com o crescimento das cidades e atividades agropecuárias.

língua-de-tucano (Eryngium paniculatum) – Essa estética planta do Cerrado já recobriu a paisagem paulistana nos antigos “Campos de Piratininga” e hoje restam somente algumas dezenas na metrópole. O fundador de São Paulo, Pe. Anchieta, fazia alparcatas com ela no distante século XVI.

Jardim no Pavilhão Japonês do Ibirapuera - foto de Ricardo Cardim

Em primeiro plano, o Jardim Zen,  e atrás o Jardim Brasileiro, unidos por uma ponte entre os pavilhões.

 Ricardo Cardim
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Dia da Árvore – o Palmito jussara cada vez mais comum nos jardins paulistanos

Palmito em rua paulistana

Palmito em rua paulistana

Comemorando o dia da árvore, homenageamos uma árvore “guerreira” da Mata Atlântica, o palmito-jussara (Euterpe edulis), que produz frutos para boa parte da fauna da floresta e infelizmente ainda continua sendo explorada clandestinamente no seu meio acima de sua capacidade de sobrevivência. Para se obter o tão apreciado palmito jussara na culinária, é preciso matar a árvore cortando a parte entre o final de seu estipe (tronco) e começo das folhas.

Mas a boa notícia para o palmito-jussara é que ele está voltando para os projetos de paisagismo, principalmente nos novos edifícios corporativos. Muitos novos jardins estão recebendo a espécie, o que certamente ajudará na sua propagação para outras áreas verdes da malha urbana e é uma escolha muito mais sustentável perante modismos estrangeiros como a palmeira-triângulo e seafórtia.

Uma dica importante é sempre plantar o palmito em grupo ou perto de outras plantas para se ter um ambiente úmido e com meia-sombra, principalmente na fase jovem. A Mata Atlântica e pássaros como o tucano-de-bico-verde agradecem.

Palmito jussara criminosamente recém-cortado na Mata Atlântica da Serra do Mar

Palmito jussara criminosamente recém-cortado na Mata Atlântica da Serra do Mar

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Na Folha de São Paulo: USP derruba vegetação de cerrado após prometer ‘museu vivo’ na área

cerrado usp folha 2014

O que o Blog alertou em 29 de maio, saiu na edição impressa no último sábado.

LINK PARA BAIXAR O PDF DA MATÉRIA:

USP Cerrado devastação 2014

Abaixo, confira em três tempos a destruição de importantes trechos do cerrados tipo “Campos de Piratininga” e de trechos do “Butantã”, chão duro em Tupi, ocorrido na obra do Centro de Convenções da USP.

Cerrado tipo "Campos de Piratininga" no ano em que a USP decretou a área como 'museu vivo'

2012: Cerrado bem preservado tipo “Campos de Piratininga” – USP decretou a área como ‘museu vivo’

Trechos de terra naturalmente expostos no Cerrado, o que nomeou o bairro de Butantã - "chão duro" em Tupi

2012: Trechos de terra naturalmente expostos no Cerrado, o que nomeou o bairro de Butantã – “chão duro” em Tupi

O mesmo local hoje, 2014, com o cerrado destruído por um aterro e barracão.

Em 2014 com o barracão construído exatamente sobre os lugares das fotos acima

Depois da destruição, o absurdo - plantio de árvores genéricas de Mata Atlântica onde antes era um Cerrado raríssimo para a história e meio ambiente da cidade de São Paulo

Julho 2014 – Depois da destruição, a patética tentativa de “recuperação” e o absurdo – um plantio de árvores genéricas de Mata Atlântica onde antes era um Cerrado raríssimo para a história e meio ambiente da cidade de São Paulo. Mesmo que tenha sobrado alguma planta de Cerrado aí, ela morrerá no futuro devido ao sombreamento das árvores de outro bioma.

 

Ricardo Cardim

 

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O eucalipto centenário foi sufocado pelo asfalto em São Paulo

No bairro do Campo Belo, Zona Sul, vive um exemplar de eucalipto com aparência de centenário, sobrevivente da já distante época rural do bairro. De porte impressionante e vigoroso, convivia em harmonia com as construções vizinhas que cresceram a sua volta ao longo do tempo. Nesse mês, a harmonia foi quebrada por um infame asfaltamento de precisão milimétrica em volta da antiga árvore, que impermeabilizou seu entorno e excluiu a possibilidade de ele obter água da chuva, oxigênio nas raízes e nutrientes.

Impermeabilização impecável

Impermeabilização impecável

Tal ato não tem justificativa e deveria ser corrigido imediatamente, sob pena de perdermos uma árvore centenária importante não somente para os serviços ambientais e história de um bairro, mas para toda a metrópole paulistana.

Vista do outro lado da rua.

Vista do outro lado da rua.

Ricardo Cardim

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