Amargo é o remédio. Porque defendo retirar as palmeiras invasoras do Parque Trianon

“Amargo é o remédio, mas é ele quem vai salvar o doente”. O doente, nesse caso, é o querido Parque Trianon ou Siqueira Campos, na Avenida Paulista. Pedacinho da antiga mata do Caaguaçú, ou “mata grande” em tupi, constitui o último trecho de Mata Atlântica original na região central da metrópole. Até dois séculos atrás fazia parte de uma extensa floresta, com antas, onças, macacos, cervos, catetos e muitos outros vivendo juntos a enormes jequitibás, perobas, cambucis, no ponto mais alto da então cidadela de São Paulo. Formavam um ecossistema equilibrado, interdependente, com o jatobá contando que a anta comesse seus frutos para quebrar no seu estômago a dormência das sementes e germinar uma nova árvore. Pouco antes de virar Avenida Paulista, seu antigo dono Paim Vieira, da Chácara do Capão, escreveu: “Era uma imensa floresta, povoada por abundante fauna“.

Quando a cidade derrubou a floresta, expulsou seus bichos, e deixou somente um vestígio do Caaguaçu. Rapidamente se pôs a modificar sua natureza, trazendo paisagistas europeus que plantaram espécies estrangeiras em moda na Europa para combinar com a arquitetura das casas, copiadas das cidades do outro lado do oceano. Assim também foi feito com os jardins das casas, e uma paisagem européia surgiu onde pouco tempo antes foi o berço da Mata Atlântica paulistana.

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Em pouco tempo, a “mata grande” dos índios cedeu lugar a pinheiros e plantas européias, criando uma paisagem que poderia estar em Berlim, Paris ou Londres. No fundo, o Trianon.

Com a cidade virando metrópole no século passado, poucos atentaram para a Mata Atlântica do Trianon. Os olhares estavam no progresso, nos carros, nos edifícios. Enquanto isso, não havia mais nenhum bicho para plantar as sementes de jatobá, de palmito jussara, e de tantas outras que foram sumindo, e nem eles podiam alcançar a floresta trazendo novas sementes dos arredores. Os ventos agora canalizados por construções, derrubavam as mais antigas e altas árvores. Eucaliptos australianos tiravam o sol das plantas nativas, enquanto as ornamentais exóticas, o espaço. O ar ficava cada vez mais seco. Os últimos pássaros e pequenos mamíferos não adaptados a cidade, eram caçados e mortos por gatos e cães domésticos.

TRIANON

Nessa foto do Botânico Hoehne do começo do século, ainda era possível ver plantas hoje desaparecidas, como o samambaiaçu, à esquerda

Inviabilizado como pequeno fragmento de mata tropical, seu ecossistema foi gradativamente e silenciosamente se deteriorando. Para o visitante amigo da natureza, estava tudo bem, a mata continuava com suas árvores e arbustos, e agora mais bonita, “civilizada” pelo paisagismo da moda.

Assim, sumiram os pássaros restritos a Mata Atlântica e entraram os generalistas, aqueles que conseguem viver nas hostis condições urbanas e se alimentam de muitas coisas diferentes. Ao mesmo tempo, nos jardins sofisticados da cidade uma palmeira de origem australiana entra na moda e participa dos mais sofisticados jardins, a seafórtia (Archontophoenix cunninghamii). Não se sabia na época que era uma  espécie invasora, e nem que isso existia.

seafórtia - arvores de são paulo - ricardo cardim

A palmeira australiana seafórtia no Vale do Anhangabaú no começo do século XX.

Nos anos 1990, o Parque Trianon, dormitório dos pássaros generalistas, está com o seu solo forrado de sementes e mudas da palmeira seafórtia, que sem inimigos naturais, um clima mais propício que sua terra natal, e com amplos espaços livres dentro da floresta deixados pelas espécies que sucumbiram ou foram cortadas, se desenvolve rapidamente. Em poucos anos alcançam porte e formam uma densa copa, que sombreia a mata abaixo. As mudas das árvores nativas ainda sobreviventes a todas essas agressões lutam para resistir a competição por água, luz e nutrientes com o “tapete” de palmeiras australianas que vai se formando e ocupando progressivamente o espaço que já foi dos palmitos-jussara, ingás, angicos e muitos outros. Para os usuários desavisados, aquele denso palmeiral esbelto, de sombrio verde-escuro, vigoroso e cada vez mais denso significa a pujança da mata tropical, e um motivo de deleite. Na primeira década do milênio, a palmeira seafórtia torna-se a senhora do sub bosque do Trianon.

parque trianon - palmeiras invasoras - foto de ricardo cardim

De Mata Atlântica biodiversa a palmeiral exótico. No meio, um eucalipto australiano.

Nesse momento o fragmento do Caaguaçu vira um doente terminal. Sua Mata Atlântica não resiste mais ao histórico de um século de agressões, descasos e isolamento. Em cada verão, caem árvores seculares que não conseguiram deixar descendentes. Ano passado foi um enorme jequitibá-branco na cerca da Al. Casa Branca. O sub bosque, cada vez mais pobre pelo excesso de sombra das seafórtias e falta de novas sementes, vira apenas um tapete de folhas com plantas comuns de paisagismo.

Se nada for feito, e as palmeiras exóticas não forem removidas rapidamente, como é feito em muitos lugares do mundo onde a sociedade e técnicos se mobilizam pela preservação de seus “museus vivos” da natureza ancestral, nossos filhos e netos terão apenas uma floresta de palmeiras australianas. Sem Mata Atlântica. Sem jequitibás e perobas. Não é previsão alarmista, isso ocorreu na Mata Atlântica da USP da Cidade Universitária, veja a foto de satélite abaixo:

parque trianon - palmeiras invasoras invadindo a USP - foto de ricardo cardim

A mancha de palmeiras na região central se espalha, como um tumor, na Mata Atlântica. Reparem que no meio da mancha, não existe mais nenhuma copa de árvore, só a seafórtia australiana. Esse é o destino do Parque Trianon se nada for feito.

Como tirar as palmeiras?

Quando em 2010 se cogitou remover as seafórtias da reserva de Mata Atlântica da Cidade Universitária da USP ocorreu uma breve polêmica e reações emocionais entre as pessoas menos informadas, e isso estimulou diversas pesquisas de cientistas do Instituto de Biociências para comprovar o extenso dano que estava ocorrendo para a sobrevivência da floresta nativa. Assim,  com os claros resultados obtidos, o governo removeu  todas as palmeiras seafórtias adultas em 2011 e as substituíram por 120 espécies nativas. Como aluno de mestrado no local na época, testemunhei todo o processo e vi a Mata Atlântica renascer sem as palmeiras invasoras, voltando a receber sol no interior da mata e despertar seu banco de sementes, brotando muitas espécies nativas antes “afogadas” pela invasão. Passados 6 anos, ver a mata da USP hoje é muito diferente. É uma Mata Atlântica típica, mais saudável, em sua dinâmica e perpetuação natural.

usp - remoção das palmeiras invasoras

Remoção da palmeira invasora, com dano mínimo ao ecossistema e plantio de mudas nativas em 2011 na USP

Outro aspecto importante é que a fauna não passará fome sem a seafórtia, pesquisadores descobriram que seus frutos são praticamente nulos de elementos nutritivos. Ela apenas “engana” o pássaro generalista com sua cor vermelho vibrante.

No Trianon, a troca da palmeira invasora australiana será por plantas que ocorriam na região séculos atrás, como o palmito-jussara (Euterpe edulis), palmeira nativa e ameaçada de extinção da nossa Mata Atlântica que séculos atrás foi muito abundante nessa floresta – e os pássaros adoram. Para isso, uma verdadeira “operação cirúrgica” será realizada junto a profissionais e pesquisadores, extraindo cuidadosamente as palmeiras invasoras e as substituindo por espécies nativas mantendo ao máximo a integridade da floresta. Embora as seafórtias sejam bonitas, lhes asseguro que a Mata Atlântica bem preservada vence de forma disparada em beleza e encanto aos olhos. E mais, o Trianon não é nosso. É de nossos filhos e netos, e devemos passá-los a eles como o testemunho de Mata Atlântica que é. Por isso é que desde 2014 junto com a ONG S.O.S. Mata Atlântica trabalho e estou como consultor para essa medida e restauração do parque. Em 2008 fiz um artigo sobre o problema: https://arvoresdesaopaulo.wordpress.com/2008/07/07/seafortia/

Esse “amargo remédio” nos faz lembrar que a responsabilidade de tudo isso é nossa. Da arrogância humana de achar que pode “embelezar” uma floresta que demorou milênios para se formar, com toda uma fauna e flora interdependentes. Que pode trazer plantas e bichos de longe por mero capricho ou status em jardins sem ter consequências terríveis. A invasão biológica é tema tão sério, que hoje é considerada a segunda maior causa da perda de biodiversidade no planeta, só perdendo para a destruição direta dos habitats, causada por instrumentos como fogo e tratores.

Ricardo Cardim

Para saber mais, seguem bibliografias para consulta sobre o tema com o respectivo link:

1.IABIN- Inter American Biodiversity Information Network. I3N – Invasives Information Network:

http://i3n.institutohorus.org.br/www/

2. 100 of the world’s worst invasive alien species: a selection from the global invasive species database. S Lowe, M Browne, S Boudjelas, M De Poorter – 2000 – academia.edu

https://scholar.google.com.br/scholar?q=invasive+species+un&btnG=&hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5

3. Os processos de degradação ambiental originados por plantas exóticas invasoras. Revista Ciência Hoje, São Paulo, 2001

http://institutohorus.org.br/download/artigos/Ciencia%20Hoje.pdf

4. Williamson, M. 1996. Biological Invasions. London. Chapman & Hall:

https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=eWUdzI6j3V8C&oi=fnd&pg=PR11&dq=williamson+1996+invasions&ots=azEhGeytbv&sig=B2DUKnhPhSJ8eb2H_aXWNyecVsM#v=onepage&q=williamson%201996%20invasions&f=false

5. Projeto de Preservação do fragmento de Mata Atlântica da Universidade de São Paulo (USP) para remoção das palmeiras invasoras. Instituto de Biociências, disponível em:

http://www.ib.usp.br/manejo-de-palmeiras.html

6. Phenology and fruit traits of Archontophoenix cunninghamiana, an invasive palm tree in the Atlantic forest of Brazil. Ana Luisa Mengardo & Vânia Regina Pivello. Disponível em:

http://www.soctropecol.eu/PDF/Ecotropica_2012/Mengardo_2012_Ecotropica_18_1.pdf

7. Subsídios para o manejo da invasão biológica de uma palmeira em áreas de Mata Atlântica. ALT Mengardo. Mestrado USP, 2011.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41134/tde-09122011-131538/en.php

8. Fecundidade, dispersão e predação de sementes de Archontophoenix cunninghamiana H. Wendl. & Drude, uma palmeira invasora da Mata Atlântica. AV Christianini. Revista Brasileira de Botânica, 2006 – SciELO Brasil.

http://www.scielo.br/pdf/%0D/rbb/v29n4/07.pdf

9. A invasão de um fragmento florestal em São Paulo (SP) pela palmeira australiana Archontophoenix cunninghamiana H. Wendl. & Drude. RICARDO DISLICH, NABOR KISSER e VÂNIA R. PIVELLO. Rev. bras. Bot. vol.25 no.1 São Paulo Mar. 2002.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-84042002000100008

10. The effects of an exotic palm on a native palm during the first demographic stages: contributions to ecological management. Ana Luisa T. Mengardo ; Vânia R. Pivello. Acta Bot. Bras. vol.28 no.4 Belo Horizonte Oct./Dec. 2014.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-33062014000400009

11. Comparing the establishment of an invasive and an endemic palm species in the Atlantic rainforest. MENGARDO, A. L. ; FIGUEIREDO, C. L. ; TAMBOSI, Leandro Reverberi ; PIVELLO, V. R. Plant Ecology & Diversity (Print), v. 5, p. 345-354, 2012.

http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/17550874.2012.735271

12. O impacto das plantas invasoras nos recursos naturais de ambientes terrestres: alguns casos brasileiros. DMS Matos, VR Pivello – Ciência e Cultura, 2009 – cienciaecultura.bvs.br

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252009000100012&script=sci_arttext

13. Tree structure and species composition changes in an urban tropical forest fragment (São Paulo, Brazil) during a five year interval. DISLICH, Ricardo ; PIVELLO, V. Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo, v. 20, p. 1-10, 2002.

http://www.jstor.org/stable/42871514

 

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Sobre Ricardo Cardim

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