Retalhos de Mata Atlântica – Panamby e Burle Marx

 

No começo dos anos 1990, passar em frente ao atual bairro do Panamby, na Zona Sul de São Paulo, era observar um pedaço ininterrupto de Mata Atlântica por vários minutos no lado direito da Marginal Pinheiros. Trazia uma sensação de ter saído da cidade, aliada a visível diminuição na quantidade de veículos depois da Ponte Morumbi.

Essa grande mancha de floresta começou a ser maculada com a criação do Parque Burle Marx em 1995, que sob a boa notícia da inauguração de mais um parque na metrópole trouxe um paliteiro de prédios no lugar das embaúbas e copaíbas que não tiveram a sorte de estar dentro do conveniente terreno preservado em formato de quebra-cabeça.

Outras áreas próximas de Mata Atlântica, como aquelas que ficavam em volta do Shopping Jardim Sul – inaugurado em 1990 - também não resistiram e se transformaram em altos condomínios envoltos por jardins franceses construídos sobre a antiga biodiversidade nativa. E assim, um dos últimos redutos de floresta nativa contínua de São Paulo virou retalhos em pouco mais de uma década.

Até hoje os lançamentos imobiliários não param, e terrenos com remanescentes de floresta aguardam mais prédios. O caso típico é esse anúncio de capa em uma revista especializada em imóveis divulgando o infeliz pedaço de mata que receberá o “ON Panamby” um ”produto” com localização privilegiada – pelo menos até as árvores dos lados caírem.

Ricardo Cardim

 

 

 

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Instalação de Daniel Caballero no Paço das Artes questiona o verde urbano

Desenho de Daniel Caballero dos campos cerrados nativos no Parque Usteri em São Paulo

Desenho de Daniel Caballero dos campos cerrados nativos no Parque Usteri em São Paulo

Daniel Caballero, Artista apresentado recentemente aqui no Blog, tem trazido interessantes reflexões sobre o verde presente na cidade de São Paulo e sua real “naturalidade”, assim como a ocorrência dos raros remanescentes da paisagem original. Na instalação inaugurada ontem no Paço das Artes na Cidade Universitária, ele traz interessantes abordagens sobre o tema, com desenhos precisos e composições que valem uma visita. Abaixo, uma breve conversa sobre seu último trabalho:

Como começou essa proposta?

Sempre que saio na rua, observo detalhes que  anoto, fotografo ou desenho. Em um desses passeios urbanos, parei para ver uma árvore na calçada, com a copa  dividida pela fiação elétrica. A árvore com o grande buraco no meio, me levou a pensar em topiaria, e jardins franceses. Que tipo de jardinagem sem intenção é essa? Seria um tipo de topiaria inconsciente? Seja como for, e claro,  bem distante dos jardins de Versalhes, me perguntei sobre a consequência dessa jardinagem no nosso dia a dia. A partir daí comecei a pesquisar  áreas naturais no espaço urbano.
Assim, aos poucos comecei a me sentir como um naturalista viajante, um tipo de Rugendas que retrata o exótico, bem do lado da minha casa.

O que você retratou nas suas esculturas e desenhos?

Encontrei coisas muito curiosas, por exemplo, por que pintar uma pedra de branco? por que ter uma jardineira com grama em cima de um gramado? Tive um  atordoamento nos sentidos pelo grande número de casas sendo demolidas para construção de prédios. De repente ruas e referências familiares mudam e a geografia da cidade vira outra coisa. Como podemos gostar de um lugar, onde cada vez menos temos memórias, nem relações afetivas com a paisagem?
É uma colagem que só percebemos saindo da rotina diária.

Que tipo de natureza você encontrou?

Não existe natureza propriamente dita em São Paulo, no sentido de um lugar que vive e se desenvolve com autonomia própria. O que existe são representações da natureza. É muito dificil termos certeza quanto tempo uma árvore na calçada vai viver, elas estão a mercê dos caprichos dos governantes, das vorazes empreiteiras e dos próprios moradores . Da mesma forma, gramados, são carpetes vivos, construídos para pedestres andarem por cima, pobres como ambiente natural. Mas é claro que alguns organismos da natureza se adaptam bem, tem muitos insetos nos gramados, e muitos ratos nos esgotos. De qualquer forma, a questão é que a cidade é totalmente impermanente, tudo muda e  a natureza real tenta existir apenas em áreas invisíveis.

Áreas invisíveis?

Sim, terrenos baldios momentaneamente abrigam natureza, eles passam como áreas invisíveis, que ninguem cuida, ninguem vê. Enquanto são potencialmente algo, mas não são nada para as pessoas,  a natureza as vezes sobrevive. Um bom exemplo é o cerradinho atrás do Extra do Jaguaré – atual Parque Usteri. O que era aparentemente um terrenão baldio, é na verdade é uma pequena e rara amostra da paisagem original da cidade.

Como essa pesquisa influênciou teu trabalho?

Meus últimos trabalhos, partiram de desenhos de observação até chegar nas instalações. Sempre abordei aspectos de uso do espaço urbano, e já vinha flertando esse embate entre artificialidade e natureza, mas acho que essa pesquisa deixou mais evidente esse confronto.
Prefiro ser um artista de campo, o ar puro ou não da cidade revela muitas coisas interessantes.

Instalação de Daniel Caballero no Paço das Artes USP

Instalação de Daniel Caballero no Paço das Artes USP

VISITAÇÃO

8 de maio a 1º de julho
Terças a sextas das 11h30 às 19h
sábados e domingos das 12h30 às 17h30

Av. da Universidade 1
Cidade Universitária
CEP 05508-040
São Paulo/SP, Brasil
T 11 3814 4832

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A jabuticabeira “abraçada” da Casa Bandeirista do Butantã

 

O bosque que rodeia a histórica Casa do Butantã, na Zona Oeste de São Paulo, conserva árvores raras e interessantes da cidade. Um exemplo são as antigas jabuticabeiras, sobreviventes de um tempo em que o bairro do Butantã ainda era rural e o Rio Pinheiros passava em frente ao casarão, e não nos fundos como atualmente.

Em uma delas ocorre uma cena comum na Mata Atlântica – o “abraço” de uma figueira-brava que cresceu apoiando nela (casca mais escura na foto). Algumas espécies de figueiras nativas costumam ser epífitas na sua juventude, e como bromélias e orquídeas, crescem sobre as árvores, em forquilhas com alguma matéria orgânica e umidade. Depois de um tempo, suas raízes alcançam o solo e então se transformam em árvores sobre a coitada que recebeu suas sementes da avifauna.

Nas árvores – que crescem lateralmente em espessura – esse “abraço” pode ser fatal se atingir toda a circunferência do tronco, mas nas palmeiras isso não ocorre devido ao tipo de crescimento dessas plantas, e ambas podem viver juntas por décadas. Importante lembrar que essas figueiras não são parasitas e não fazem mal ao meio ambiente, são árvores belíssimas e que deveriam ser mais plantadas nas praças e parques.

Vista geral das duas árvores se apoiando.

Vista geral das duas árvores se apoiando.

Flores da velha jabuticabeira.

Flores da velha jabuticabeira.

Ricardo Cardim

 

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Agradecimento

 

 

Gostaria de agradecer e dividir com todos os apoiadores e amigos da natureza da cidade de São Paulo a medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, entregues pela Câmera Municipal por indicação do Presidente do Partido Verde, José Luiz Penna, como reconhecimento do trabalho da ação Amigos das Árvores de São Paulo na defesa das árvores e biodiversidade ancestral paulistana.

Ricardo Cardim

 

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10 frutas nativas dos cerrados e mata atlântica de São Paulo

 

frutas nativas do cerrado e mata atlantica - composição de Ricardo Cardim - www.arvoresdesaopaulo.com.br

Não espere encontrar as frutas da fotografia acima nos supermercados. Conforme exposto no Blog ano passado, das 20 frutas mais comercializadas no Brasil, apenas 3 são nativas de nosso país, e atualmente conseguir experimentar um desses sabores “do mato” pode ser considerado luxo.

Mudar essa concepção cultural e agronômica é algo que leva um bom tempo ainda, mas podemos começar a divulgar e cultivar nas cidades os frutos nativos, de forma a resgatarmos sabores esquecidos e ajudarmos no reequilíbrio ecológico urbano. Plantar árvores frutíferas nativas da região é um método eficaz de atrair a biodiversidade e tornar as cidades mais acolhedoras.

1. cereja-brasileira ou grumixama (Eugenia brasiliensis) - árvore da Mata Atlântica, frutifica perto do Natal com frutos muito semelhantes em sabor e cor com a cereja nativa da Europa. 

2. guabiroba (Campomanesia pubescens) – arbusto produtor de frutos muito saborosos e refrescantes. Já foi comum nos campos cerrados da cidade de São Paulo e hoje sobreviveu na metrópole com poucos exemplares dentro da Cidade Universitária da USP.

3. tarumã-do-cerrado (Vitex polygama) – árvore dos cerrados com frutos semelhantes a uma azeitona-preta e sabor levemente adocicado. Na cidade de São Paulo sobrevive no Parque Usteri e na Cidade Universitária da USP.

4. perinha-do-cerrado (Eugenia klotzschiana)- arbusto que produz um fruto nobre, a perinha é típica dos cerrados abertos. Não existe mais na cidade de São Paulo.

5. uvaia (Eugenia uvalha) – árvore da Mata Atlântica, produz frutos bons para sucos e ainda pode ser encontrada no Parque Trianon, na cerca próxima a Avenida Paulista.

6. jerivá (Syagrus romanzoffiana) – Talvez o único fruto fácil de encontrar nas ruas e jardins paulistanos. Seus “coquinhos” – como são conhecidos - já foram a alegria das crianças do passado.

7.sete-capotes (Campomanesia guazumifolia) – semelhante a uma goiaba, tem a polpa doce e hoje é muito difícil de ser visto na Mata Atlântica da metrópole.

8. cambuci (Campomanesia phaea) – fruta da Mata Atlântica e considerada símbolo da cidade de São Paulo, está quase extinta por aqui. Seus frutos são levemente azedos e refrescantes.

9. cagaita (Eugenia dysenterica) - árvore do cerrado que produz frutos saborosos, mas não recomendado para ser ingerido em grande quantidade – o próprio nome da planta explica. Não existe mais na cidade de São Paulo.

10. melancia-do-cerrado (Melancium campestre) – muito parecida com a melancia comercial, essa fruta está extinta dentro da cidade de São Paulo. Até o começo do século passado era comum nos campos-cerrados do Butantã, Ipiranga e até na região da Avenida Paulista.

Encontrar mudas dessas frutíferas ainda não é tarefa fácil. Uma recomendação é contatar o Sítio Frutas Raras, Sr. Helton, pelo fone (oxx15) 8132 5140 ou  frutasraras@uol.com.br .

Ricardo Cardim

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Descoberta uma das últimas orquídeas de cerrado sobrevivente na cidade de São Paulo

A floração da orquídea em foto de Cristiano Buzatto.

A floração da orquídea em foto de Cristiano Buzatto.

Quando o bairro do Butantã era somente grandes extensões de campos com vista para as várzeas margeando o ex-curvilíneo Rio Pinheiros, o Botânico Aylthon Joly se deparou com uma orquídea nativa naquelas paragens, a Habenaria secunda, crescendo em meio aos capins nativos. Isso foi na década de 1940, e desde então, não se tem mais notícia dessa planta na cidade de São Paulo.

Visitando semana passada os poucos remanescentes  desses campos cerrados do Butantã, no atual  Campus da Universidade de São Paulo, me deparei com um exemplar desta orquídea cercada por plantas invasoras como o capim-gordura (África) e as agaves (México). Estava sozinha, frutificando e liberando suas pequenas sementes na tentativa de continuar existindo.

O gênero dessa bela orquídea, de flores em cachos, existiu originalmente em vários outros campos nativos da antiga cidade de São Paulo, como Vila Mariana, Avenida Paulista, Ipiranga, Móoca, Vila Leopoldina e Higienópolis, conforme pesquisou o Botânico suiço Usteri, em 1911. Hoje, não existe mais sinal destas orquídeas nesses locais.

O único exemplar da orquídea encontrado nos campos cerrados da USP - existirá até quando?

O único exemplar da orquídea encontrada nos campos cerrados da USP - existirá até quando?

A área de campos cerrados da Universidade de São Paulo – futuro “Museu-Vivo” conforme a atual Reitoria – é, junto com o Parque Municipal Alfred Usteri no Jaguaré, um dos últimos trechos da vegetação que nomeou no passado a cidade de “São Paulo dos Campos de Piratininga”.

O Botânico Frederico Hoehne, defendia em 1925 a importância dos campos cerrados que também ocorriam no Bairro do Ipiranga (hoje extintos sob o asfalto e jardins franceses no Museu de mesmo nome) – “É lamentável, sinceramente lamentável, que o governo do Estado não queira conservar um maior trecho daqueles campos tão importantes para a história quanto para as ciências. Ainda o poderia fazer hoje, amanhã será sempre tarde, estarão perdidos para sempre e com eles perdida a única lembrança da natureza primitiva do ponto onde D. Pedro I deu o brado da independência.”

Hoehne, fundador de nosso Jardim Botânico, ainda relatava a grande biodiversidade desses cerrados no Ipiranga: mais de 200 espécies diferentes de plantas (!). Bem, não foi por falta de aviso que mais de 80 anos depois quase tudo se extinguiu na metrópole. A orquídea apresentada aqui é uma rara sobrevivente em meio as imensas alterações que fizemos na natureza original paulistana. Uma relíquia viva.

Os campos cerrados paulistanos precisam ser divulgados, protegidos e pesquisados como patrimônio da história e ciência, como já se dizia no começo do século passado. A maior cidade brasileira merece isso.

O exemplar de Habenaria secunda - aspecto do seu tamanho.

O exemplar de Habenaria secunda - aspecto do seu tamanho.

 

Folhas

Folhas

 

Ricardo Cardim

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O questionamento do natural em São Paulo pelo Artista Daniel Caballero

 

O Artista Plástico Daniel Caballero traz em seus desenhos uma interessante leitura e pensamentos sobre a natureza paulistana, biodiversidade nativa e artificialidade. Nas suas palavras:

“Meu questionamento pensa o que efetivamente é natural na cidade. Na minha abordagem, árvores e gramado não são ambientes naturais. Portanto a árvore podada com o poste, mostra uma crueldade que na verdade acho que não me comove mais. Tento mostrar a árvore como uma “artificialidade” que sugere natureza. Alguns desenhos tratam de pedras, córregos e outros elementos também, supostamente naturais.

Entre algumas possibilidades, podemos pensar a diferença entre uma área natural, remanescente de São Paulo, como o cerrado ou fragmentos de mata atlântica, em contraposição a uma área plantada com eucaliptos no parque do Ibirapuera. 

Ainda bem que pelo menos temos Ibirapuera e todo mundo já sabe que precisamos de mais árvores mas, a áridez da cidade vai além. Aqui perto de onde moro, toda semana derrubam uma casinha simpática para construir um novo prédio.”

Instalação no MASP

Instalação no MASP

Ricardo Cardim

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