Ingá, árvore que habitou as extintas matas ciliares dos rios paulistanos

Frutos do ingá-amarelo, da Mata Atlântica

Quando os rios e córregos da atual cidade de São Paulo corriam livres  e eram cercados por Mata Atlântica – há muito tempo atrás – os peixes tinham certeza da alimentação abundante nessa época do ano, por ser o tempo de frutificação do ingá (Inga sp.), que costumava crescer debruçado nas margens em direção as águas.

Assim foi com o Rio Tietê e Pinheiros, onde os relatos contam de grandes árvores do gênero. E provavelmente com muitos outros rios atualmente cimentados ou com árvores estrangeiras nos seus taludes e sem peixes.

Seus frutos também são coméstiveis ao ser humano, de sabor levemente adocicado e polpa refrescante, mas hoje é bem raro encontrá-los na metrópole. Trata-se de uma árvore excelente para arborização de calçadas estreitas, e que atrai pássaros e abelhas, apresentando um porte médio e crescimento rápido.

Para quem quer experimentar, existem alguns exemplares carregados na Cidade Universitária da USP, na rotatória em frente ao ICB.

Ingá ainda jovem

Ingá carregado de frutos

As belas e melíferas flores do ingazeiro

Uma peculiaridade do ingazeiro é a presença de nectários (na foto o pequeno círculo na junção das folhas) - estruturas que secretam néctar - e alimentam insetos como formigas, que em troca, defendem a árvore.

 

Ricardo Cardim

 

Publicado em Árvores de São Paulo, árvore urbana, árvores, árvores frutíferas, Biodiversidade paulistana | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Envenenamento de árvores – prática ainda comum em São Paulo

As velhas ladainhas - justificativas para a morte de milhões de árvores urbanas ao longo dos tempos - de que folha é sujeira, raiz levanta calçada, copa atrapalha a placa comercial, joga folha no porcelanato, etc., etc., ainda provoca vítimas em pleno século XXI. Dessa vez foi um alfeneiro adulto, de grande porte, que foi aparentemente envenenado em uma bairro paulistano.

Percebido por moradores atentos à importância das árvores para a qualidade de vida na metrópole, o ato acabou denunciado no Ministério Público e gerou multa por parte da Secretaria do Verde. Ações egoístas como essas não podem ficar impunes. O dano já está feito, e mesmo que se plantem mudas no lugar, o prejuízo ambiental durará no mínimo 10 (tempo da muda crescer), enquanto isso, a comunidade local e a cidade terão menos serviços ambientais.

Orifício feito com furadeira elétrica para injeção de veneno no tronco.

chão forrado de folhas verdes e sadias por causa do veneno aplicado.

Chão forrado de folhas verdes e sadias por causa do veneno aplicado.

A sábia denúncia feita pelos moradores da rua.

A sábia denúncia feita pelos moradores da rua.

Alfeneiro de formação e porte adequado para disponibilizar serviços ambientais e beleza para população paulistana.

Alfeneiro de formação e porte adequados para disponibilizar serviços ambientais e beleza para a população paulistana. Sobreviverá?

 

E o mais comum depois de matar a árvore da frente de casa é o “arvoricida” estacionar seu carro embaixo da árvore do vizinho.

Endereço do crime ambiental: Rua José Ubaldo Lomonaco, 331 – Jardim da Glória – São Paulo

 

Ricardo Henrique Cardim

 

Publicado em arborização urbana, Árvores de São Paulo, árvore urbana, destruição do verde em São Paulo, meio ambiente urbano em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Natal – época de frutificação da grumixama – a cereja da Mata Atlântica

 
 

A cereja da Mata Atlântica

 
 

A grumixama ou cereja-do-brasil em diferentes estágios de maturação.

  
 

No Natal brasileiro comumente tão cheio de alimentos importados, a natureza nos mostra como valorizamos pouco a nossa biodiversidade. Em qualquer supermercado nesta semana, não vão faltar na prateleira inúmeros pacotinhos de cerejas importadas do Chile a preços muitas vezes salgados.

Enquanto isso, em alguns raros lugares da cidade de São Paulo, a grumixama ou cereja brasileira está carregada de frutos praticamente idênticos em cor, formato e sabor à espécie importada. No Jardim Botânico, onde foram fotografadas essas, as árvores estão repletas, sendo um convite a experimentar in natura ou levar um pouco para casa e fazer geléia – tão boa quanto as conhecidas “frutas vermelhas”.

Outros locais com grumixamas são a Casa Modernista da Vila Mariana e o Parque do Pico do Jaraguá. Mesmo parecidos, a cereja importada é Prunus sp. enquanto a nativa grumixama é Eugenia brasiliensis.

É uma ótima opção para jardins, vasos e calçadas com fios baixos, já que apresenta pequeno porte.

A grumixama em idade de frutificação.

 

 Ricardo Cardim

Publicado em árvores, árvores frutíferas, árvores nativas, Biodiversidade paulistana | Com a tag , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

Depois de 3 anos de pesquisas – NOVA página “Lista de plantas invasoras” da cidade de São Paulo

Pouca gente sabe, mas hoje a segunda maior causa de perda de biodiversidade no mundo é causada por um fenômeno que parece banal e sem importância, o hábito de se usar plantas estrangeiras – aquelas que não existiam originalmente no local – em atividades humanas como o paisagismo e arborização urbana, por exemplo. Só perde para a destruição dos habitats pelo homem.

Muitas destas plantas estrangeiras ou exóticas se tornam invasoras de ambientes nativos, competindo por recursos no ambiente com a vegetação  ancestral – e ganhando a luta – o que significa a morte das nativas.

Embora grave a ponto de provocar ameaça de extinção às plantas nativas dentro dos poucos remanescentes de Mata Atlântica e cerrado na cidade de São Paulo, o assunto permanece ainda desconhecido pela maioria.

Dentro das pesquisas realizadas nos últimos três anos, estudando a regeneração e ameaças dos campos cerrados paulistanos e alguns trechos de Mata Atlântica no Município, elaborei uma lista com as 29 espécies invasoras mais comuns na metrópole e explicação da situação. Confira no link abaixo:

 http://arvoresdesaopaulo.wordpress.com/plantas-invasoras-lista/

 

Ricardo Cardim

Publicado em árvores, Biodiversidade paulistana, Botânica, campos cerrados em São Paulo, cerrado em São Paulo, espécies invasoras, História de São Paulo, meio ambiente urbano em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Avenida Paulista – 120 anos atrás era “mata grande” ou Caaguaçu

Mata do Trianon ou Caaguaçu em meados do século passado.

Caaguaçu era como os índios chamavam esse morro alto onde hoje é a avenida mais famosa da cidade de São Paulo – a Paulista. Relatos de séculos atrás falam de uma floresta secular, repleta de árvores enormes de madeira-de-lei. A história deve ser mesmo verdade, a ponto de  os indígenas - acostumados a vida na natureza – nomearem assim o local.

Essa floresta ainda vive em alguns trechos da atual paulista, como o Parque Trianon, que conserva  algumas dessas grandes árvores originais, com destaque para os jequitibás e jatobás.

 

O imponente jequitibá-branco do Trianon com mais de dois séculos de idade - assistiu a metrópole crescer a sua volta.

 

Outro fragmento é o recente Parque Mário Covas, com seus imponentes jacarandás-bico-de-pato, madeira nobre e rara  na cidade. Ao lado está o belo casarão de 1905 abandonado que deveria virar um local público e se anexar seus velhos exemplares de cedros e canelas formando um só parque. Seria um ótimo presente de aniversário para a Avenida.

Em outro trecho da Paulista tivemos neste ano uma baixa em importantes descendentes da Mata do Caaguaçu – as canelas, embaúbas, tapiás e outras que viviam no terreno da antiga mansão Matarazzo – que vai virar shopping  – as que sobraram foram transplantadas e agonizam hoje desfolhadas.

Também a arborização da Paulista ainda segue tímida, com alguns exemplares novos de espécies não nativas na maioria, como o pau-ferro. Merecia ganhar também copaíbas, canelas, marmeleiros e outras espécies típicas do antigo Caaguaçu.

 

Em frente ao Trianon - uma surpresa - a uvaia frutificando, uma árvore típica da Mata Atlântica original. Parece que os atuais paulistanos esqueceram que esses frutos já foram muito apreciados no passado, e deixaram o pé carregado de frente a calçada.

Ricardo Cardim

Publicado em Árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores frutíferas, árvores nativas, Biodiversidade paulistana | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 4 Comentários

Política do verde urbano – entrevista para site de direito ambiental

 

 

Por Roseli Ribeiro.

O ambientalista Ricardo Henrique Cardim em entrevista exclusiva ao Observatório Eco defende que a legislação municipal de São Paulo deveria considerar a arborização e vegetação da cidade como algo “imprescindível”, dar ao tema o mesmo tratamento e importância dispensados aos serviços básicos, como água, energia, esgoto e telefone.

Para o ambientalista, ainda prevalece na legislação o conceito de que a árvore é apenas um enfeite no ambiente, desconhecendo-se o importante serviço ambiental que ela presta para a cidade. Cardim defende que a “árvore deve ser plantada em uma calçada, quer o cidadão queira ou não”.

Ricardo Cardim além de possuir o blog “As árvores de São Paulo” também apresenta o programa “Natureza Urbana” na Rádio Eldorado/ESPN, as terças e quintas-feiras, onde fala sobre as árvores centenárias da cidade, espaços verdes públicos e dá dicas para cuidar da natureza em casa.

Recentemente, defendeu a preservação de uma área verde na USP (Universidade de São Paulo), um remanescente importante de cerrado que estava sendo destruído no local por uma obra. Seu inconformismo garantiu a paralisação das obras e a promessa da reitoria da universidade de que será criado no local um museu vivo para garantir a conservação desse patrimônio botânico da cidade.

Outro aspecto que preocupada  Cardim é a aplicação da lei municipal 15.470/2011, que altera o procedimento de poda de árvores na cidade. Para o especialista, o sistema que visa agilizar os pedidos de podas pode comprometer a saúde delas, criando uma demanda desnecessária pelo serviço. Ele lembra que muitas árvores morrem em São Paulo justamente pela poda inadequada. Veja a entrevista que Ricardo Cardim concede ao Observatório Eco com exclusividade.

Observatório Eco: De que forma você avalia a relação da cidade de São Paulo com as suas árvores?

Ricardo Cardim: O que percebo é que a legislação deveria colocar a arborização e a vegetação da cidade como algo imprescindível, assim como são os serviços básicos de água, energia, esgoto e telefone.

Infelizmente, se tem muito ainda a visão de que no que se refere ao plantio é que a árvore é um enfeite uma opção para o morador. Quando na verdade a árvore é fundamental para a qualidade de vida e saúde pública, é um direito coletivo. A árvore deve ser plantada em uma calçada quer o cidadão queira ou não.

Ainda prevalece aquela imagem: Ah, com licença será que posso plantar uma árvore em sua calçada? Você não quer porque faz sujeira? Como se folha fosse sujeira. Ou então a árvore é plantada e o proprietário a acaba depredando.  

Precisamos ter uma legislação rigorosa não no sentido do cidadão que já é esclarecido de que o meio ambiente é importante, mas no sentido de pegar aquele cidadão que só pensa no seu próprio umbigo e não quer que se plante árvore na frente de sua casa, por causa de uma folha que cai, ou de ter mais trabalho, mas que para o seu carro embaixo da copa da árvore do vizinho.

Observatório Eco: Todo mundo quer estacionar o carro próximo da árvore e usufruir da sombrinha dela.

Ricardo Cardim: Exatamente, o que acontece é que essa visão distorcida acabaprejudicando a arborização da cidade. A cidade de São Paulo precisa muito mais de árvores em calçadas do que em parques, alças de acesso, canteiros, precisamos delas onde as pessoas estão.

Observatório Eco: A prefeitura tem uma política de arborização que é de difícil aceitação pela população?

Ricardo Cardim: A política de arborização da cidade ainda é muito tímida, ela ainda considera um pensamento do século passado.

Observatório Eco: Ou seja, tanto a política de arborização quanto as pessoas precisam evoluir no tema?

Ricardo Cardim: Isso, só que não podemos esperar que as pessoas evoluam, esse é um processo muito mais lento. É a mesma coisa que você esperar que as pessoas parem de beber e deixem de dirigir bêbadas.

Precisamos de uma lei rígida, como está sendo feito agora nesse caso da bebida, para que as pessoas entendam de uma vez por todas, por bem ou por mal, que elas precisam parar com essa cultura. Vejo na arborização o mesmo aspecto, ela é  encarada de forma muito tímida numa metrópole como São Paulo.

Observatório Eco: Outro aspecto polêmico na cidade é a questão de poda das árvores, qual sua avaliação dessa questão?

Ricardo Cardim: Qual a principal razão de poda na cidade de São Paulo hoje? A principal razão são os fios elétricos. A fiação área. Isso já está errado. Pois uma cidade rica como São Paulo que tem eletrificação há mais de 120 anos, já deveria estar com os seus fios enterrados, como são as grandes capitais de primeiro mundo.

Assim, partindo desse pressuposto já se percebe que grande parte dessas podas é desnecessária e só faz mal para a planta e para a cidade também. Porque quando você poda uma árvore você tira área verde da cidade, ou seja, isso significa menos serviço ambiental e saúde. Quanto maior a biomassa, mais serviços ambientais.

Além do que, pela forma como as podas são feitas, elas servem de entrada para doenças e problemas que acabam vitimando essa árvore. Muitas árvores caem em São Paulo, por causa de podas.

Observatório Eco: A poda mal feita prejudica ainda mais.

Ricardo Cardim: Exatamente, vamos supor Paris que é uma cidade desenvolvida, lá a poda é feita em galhos pequenos, é a chamada poda de condução, em galhos pequenos a poda não faz mal para a árvore, porque ela consegue cicatrizar o machucado. Aqui eles deixam que o galho cresça bastante e depois vão lá e mutilam a planta.

E agora fizeram uma legislação para acelerar o processo de poda, que em São Paulo é considerado demorado, eles liberaram que empresas privadas possam fazer laudos técnicos autorizando e pedindo o serviço. Isso pode criar uma verdadeira indústria da poda, eles vão gerar serviços para eles mesmos. Isso é errado.

Observatório Eco: Você é contra a essa iniciativa.

Ricardo Cardim: Sou contrário, porque se eu levar você em qualquer rua de São Paulo, vou achar árvores mutiladas e podres em razão de poda. E quando a árvore cai é culpa dela e não de quem fez a poda errada.

Observatório Eco: Outro aspecto preocupante na cidade é a falta de áreas verdes e a existência de ilhas de calor. Agora para combater essa situação estão surgindo projetos de lei defendendo a adoção de telhados verdes. Qual a sua opinião sobre essas iniciativas legislativas?

Ricardo Cardim: Hoje vejo o telhado verde como uma solução fundamental para São Paulo. A cidade tem quase toda sua área construída. Não sobrou espaço na cidade para a vegetação necessária para tornar o espaço habitável com qualidade de vida.

Por mais que a gente consiga arborizar a cidade com excelência, mesmo assim vamos morar em um ambiente desértico. Precisamos com urgência colocar os telhados verdes, trazer coberturas verdes para os edifícios. E não adianta pintar de branco, como tem uma campanha por aí, isso é insustentável, pois você vai apenas diminuir a temperatura, com um material tóxico que é a tinta, por apenas um ou dois anos, até que aquilo fique sujo e comece a descascar.

Quando você usa a vegetação, traz uma série de serviços ambientais, e não somente o impacto na temperatura, tem a questão da umidade do ar, a biodiversidade nativa, o equilíbrio ecológico da cidade.

Hoje afirmo com certeza que o telhado verde tem que ser uma obrigação na cidade de São Paulo, principalmente em obras grandes, que possuem volume financeiro e que causam maior impacto.

Observatório Eco: Em São Paulo temos algumas iniciativas de compensação de carbono pela realização de um grande evento, ou seja, plantar mudas de árvores para compensar essas emissões. Mas até que ponto isso realmente é produtivo para a própria cidade? Muitos projetos de lei tratam dessa matéria inclusive. Qual a sua opinião?

Ricardo Cardim: Acho que a maioria dos projetos de carbono neutro é maquiagem verde. Não são efetivos realmente, não há um plantio cuidadoso com espécies adequadas e que seja acompanhado até que essas plantas cresçam. É muita coisa de cortar fita.

A compensação de emissões de carbono na cidade é legal, mas precisa ser feita de forma rigorosa, tecnicamente adequada, e buscando sempre resgatar a biodiversidade nativa, o que não é feito.

Observatório Eco: Qual a sua opinião sobre o projeto de mudança do Código Florestal em votação no Senado Federal?

Ricardo Cardim: Sinceramente, acho surreal nesse momento tão importante da questão ecológica mundial, que estejamos discutindo algo que deveria ter sido debatido no século XIX. Isso já mostra como o governo está desconectado das questões nacionais e internacionais.

É muito preocupante, numa época em que quase nada sobrou da nossa riquíssima biodiversidade nativa, principalmente no sul, sudeste, centro oeste, pois hoje tudo está fragmentado, os rios prejudicados.  

Deveríamos estar discutindo como tornar sustentável a nossa agricultura, que é de ponta e algo maravilhoso que o Brasil tem, e não como torná-la insustentável e atrasada, que é o que essa minoria está conseguindo articular no Congresso.

Observatório Eco: Mas é uma minoria extremamente forte.

Ricardo Cardim: Exatamente, uma minoria poderosa que está articulando um lobby em função de interesses que não são dos brasileiros. Sempre contrapondo a produção agrícola que é uma atividade nobre e importante à preservação ecológica. Quando hoje se sabe que é perfeitamente viável coexistir os dois.

Observatório Eco: Conte um pouco desse projeto do Museu Vivo na USP (Universidade de São Paulo) no qual você está envolvido. 

Ricardo Cardim: Vou falar sobre algo que abrange o trabalho do Observatório Eco que é a legislação. O que justamente levou a descoberta deste trecho de cerrado na Universidade de São Paulo por mim foi o fato de que a legislação não prevê a compensação ambiental de outras formas de vidas que não árvores.

Assim, temos um grande problema, uma vegetação de cerrado, por exemplo, é riquíssima em espécies de vida tanto animal, como vegetal, mas tem poucas árvores. A riqueza do cerrado é em forma de vidas menores, como arbustos, grama, gramíneas, erva que possuem tanta importância quanto a Mata Atlântica.

Só que esse aspecto não é muito observado na legislação, então quando cheguei ao local dessa obra, uma grande parte desse cerrado ancestral, raríssimo na cidade de São Paulo já tinha sido destruído por escavadeiras com autorização.

Fiquei indignado com isso, fui procurar a reitoria da USP e a mídia, justamente para tentar salvar o que sobrou.

Observatório Eco: E sobrou muito?

Ricardo Cardim: Avalio que mais da metade do local foi destruída, em torno de 60%. Vai saber o que foi embora, poderia ter ainda espécies que nem mais imaginávamos que existiam em São Paulo.  Bem, extinção é realmente para sempre.

Observatório Eco: E quando será inaugurado esse Museu Vivo?

Ricardo Cardim: A reitoria disse que será inaugurado dia 7 de dezembro, vamos esperar. Houve a promessa de que a área remanescente será cercada, terá um manejo adequado e que será preservada, monitorada, cuidada. Estou atento. 

Observatório Eco: Inclusive, existe um projeto no Jardim Botânico do Rio de Janeiro que está buscando nos museus europeus exemplares da nossa flora, e trazendo imagens digitalizadas desse patrimônio botânico. Qual sua opinião sobre esse resgate, ainda que virtual de nossa biodiversidade?

Ricardo Cardim: É um trabalho maravilhoso. Porque só preservamos aquilo que conhecemos. No caso da USP, justamente o desconhecimento de que existe em São Paulo vegetação de cerrado, que chegou a nomear a cidade [o nome da antiga vila que dá origem à cidade, São Paulo dos Campos de Piratininga, é uma referência a esse tipo de vegetação - campo é outro nome pelo qual o cerrado é conhecido].

O desconhecimento disso levou à falta de uma legislação sobre o assunto, que resultou na destruição. É um exemplo de como o desconhecimento tem graves consequências.   

E já que o Observatório Eco é dirigido para juízes, promotores, advogados, é muito importante que esse conhecimento chegue até esses profissionais que têm o poder de decisão. De mudarem as coisas, e impedirem que tragédias como essa que aconteceu na USP. 

 

Publicado em arborização urbana, árvore urbana, Biodiversidade paulistana, meio ambiente urbano | Com a tag , , , , , , , , , , | 5 Comentários

As figueiras históricas da cidade de São Paulo – Casa do Caxingui

Espécies de figueiras existem em diversas partes do globo. Na cidade de São Paulo elas tem presença marcante em nossas ruas, parques e praças, refletindo as chamadas “ornamentais” - de origem exótica - vindas principalmente do continente asiático e plantadas por aqui desde o final do século 19. Exemplos são a ficus (Ficus benjamina), figueira-lacerdinha (Ficus microcarpa) e a enorme falsa-seringueira (Ficus elastica) , as mais comuns.

O que pouco se sabe é que a Mata Atlântica tem espécies belíssimas de figueiras, que no passado chegavam a dimensões colossais e apresentavam raízes tabulares impressionantes, hoje infelizmente muito difíceis de serem vistas próximas as cidades. Em São Paulo, uma destas espécies nativas pode ser considerada um ícone da nossa biodiversidade, a figueira -brava (Ficus organenesis), que fez e faz parte da história paulistana em diversos momentos.

Essa árvore que alcança belo porte e grande idade, marcou pontos urbanos como o limite da antiga São Paulo (figueira-das-lágrimas) e o Largo da Memória, no Centro. Dois exemplares também muito antigos, provavelmente mais que centenários, vivem na atual Casa do Sertanista ou Caxingui, imóvel histórico do século 17 no Bairro do Caxingui (Zona Oeste), e estão aparentemente esquecidos no local que hoje é museu municipal, sendo possivelmente até contemporâneos a casa e nascidos em uma época rural.

Plantas como essas deveriam ser valorizadas como exemplares únicos remanescentes de nossa flora e divulgadas, além de reproduzidas para serem plantadas em outras áreas públicas e resgatar a história e a rica natureza ancestral paulistana.

 

O exemplar vivente dentro da Casa do Caxingui - árvore muito antiga.

Raízes típicas da espécie.

A outra figueira acabou sendo incorporada no canteiro da avenida pela loteadora no século passsado, e está a poucos metros do outro exemplar. Infelizmente tem vários pregos fincados em seu tronco, que podem ameaçar sua saúde.

 

 

Endereço – Casa do Sertanista
Pça. Dr. Enio Barbato, s/nº – Caxingui, São Paulo, SP
Fone 11 3726 6348
Obs. Visitação suspensa temporariamente para obras de restauro.

 Ricardo Cardim

 

Publicado em arborização urbana, Árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores, Biodiversidade paulistana, Mata Atlântica | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 1 Comentário

As dificuldades do cultivo de mudas do cerrado e sua recomposição – o pau-santo

 

Continuando o tema cerrado e sua preservação, gostaria de dividir uma experiência que acredito interessante na difícil arte do cultivo de suas plantas nativas -

Árvore típica do cerrado, o pau-santo (Kielmeyera sp. -  Guttiferae), apresenta o belo aspecto característico do Bioma, com troncos retorcidos e uma casca muito espessa, que se assemelha a cortiça e proporciona proteção para os costumeiros incêndios na vegetação.  Na cidade de São Paulo hoje ele está provavelmente extinto, existindo um velho exemplar na Universidade de São Paulo e uma pequena população sobrevivente nos arredores do Município, dentro do parque Estadual do Juquery. 

Exemplar muito antigo de pau-santo na USP. Possivelmente o único na cidade de São Paulo.

 

Aspecto da sua espessa casca, típica proteção no cerrado.

 

os bizarros frutos do pau-santo, que abrigam dezenas de sementes. Parque do Juquery.

 

Exemplar da população sobrevivente no cerrado do Parque do Juquery.

 

O exemplar paulistano frutificou em setembro do ano passado e liberou algumas sementes viáveis, que germinaram em outubro sem maiores dificuldades. Passados alguns meses, as 15 mudas cresciam bem e vigorosas, até que em março e abril desse ano elas começaram a ficar com as folhas amareladas e definharam até desaparecerem – sobrou só a terra.  Intrigado, escavei e percebi que o caule e raiz abaixo da terra apresentavam um espessamento (algo como um pequeno xilopódio) bem úmido e vivo, mas na superfície, nem sinal de vida.

Agora, no começo da primavera, elas começaram a rebrotar vigorosamente. O interessante é que essa conhecida estratégia típica das plantas do cerrado de terem caules e estruturas subterrâneas para resistirem a época de seca e dos incêndios começa já na fase de plântula, logo depois da germinação. Quando não se sabe disso, a chance de jogar fora as mudas é bem grande. Observando fatos como esse, vemos porque o conhecimento de recomposição do cerrado está muito atrasado em relação a Mata Atlântica e, enquanto isso, enormes remanescentes desse Bioma são destruídos diariamente.

 

Muda do pau-santo cerca de 3 meses após germinar - desaparecida.

 

Em outubro, no começo da estação chuvosa - ressurgindo.

 

Existe um artigo científico que explica essa estratégia do gênero -clique aqui para ler o resumo (em inglês).

 

Ricardo Cardim

 

Publicado em árvores, árvores nativas, Biodiversidade paulistana, campos cerrados em São Paulo, cerrado em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

Trabalho do Blog encontra em canteiro de obras cerrado raro que será preservado e transformado em museu-vivo na USP

Aspecto geral das obras na USP onde existem os remanescentes.

 

Ao saber da polêmica gerada pelas obras do novo Parque dos Museus na Universidade de São Paulo (USP) resolvi ir até o local e visitá-lo. Na parte mais visível dos trabalhos de movimentação de terra, somente exemplares de árvores pioneiras exóticas e invasoras, como a leucena e tipuana - conforme descrito no licenciamento ambiental – entretanto, na parte do futuro Centro de Convenções o cenário se alterou bastante. Ali, várias espécies do cerrado paulistano ancestral, praticamente extintas na metrópole, como a fruta-de-pombo (Erythroxylum sp.), gabiroba-do-campo (Campomanesia sp.), araçá-do-cerrado (Psidium guineense), murici-do-campo (Byrsonima intermedia) e duas espécies diferentes de língua-de-tucano (Eryngium sp.) sendo uma que eu nunca havia visto antes, estavam na beira dos taludes dragados pelas retro-escavadeiras. Cenário que seria impensável em um país que conserva sua biodiversidade.

Isso se deve ao fato de a legislação e o senso comum só considerarem vegetais do porte de árvore como importantes, deixando toda uma infinidade de formas de vida nativas como arbustos, cipós, orquídeas, bromélias e capins relegados à destruição sumária. Assim, vegetações como o cerrado – composto em sua maioria de ervas e arbustos – ficam descartáveis, mesmo sendo considerado mundialmente um hot spot.

Nas imediações da movimentação de terra, diversos exemplares de velhos muricis-do-campo e fruta-de-pombo semi-arrancados tentavam rebrotar. Com uma enxada resgatei cerca de 20 exemplares, que já foram plantados em recipientes de mudas para serem depois replantados. A Reitoria da USP, alertada do fato, se mobilizou e paralisou a obra, e irá transplantar os exemplares ameaçados e preservar áreas remanescentes do entorno, além de uma outra área perto do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) já pleiteada por aqui em setembro do ano passado leia aqui. Assim, serão criadas novas reservas e um museu-vivo para apresentar a paisagem primitiva da maior metrópole brasileira junto aos museus tradicionais.

 

Aspecto dos campos em volta da obra: paisagem típica da vegetação de cerrado aberto, com o capim barba-de-bode.

Aqui, justifica-se o antigo nome da área "Campos do Butantã", onde Butantã em tupi significa "terra dura, socada" como visto entre as plantas de cerrado - uma paisagem ancestral.

caroba-do-campo, planta descrita na região na década de 1940, que deverá ser transplantada.

A histórica língua-de-tucano, utilizada por Anchieta no séc. XVI, na beira do talude.

Uma população de fruta-de-pombo ainda jovem cercada por outras plantas típicas do cerrado paulistano.

Espécie de língua-de-tucano, que nunca vi semelhante na cidade, ao lado das escavações.

Resgatei alguns exemplares mais expostos pelas escavações. Muitas plantas do cerrado, como esse murici-do-campo da foto, apresentam um caule subterrâneo (xilopódio) como defesa aos incêndios. Estão agora em vasos recuperando-se para serem replantados.

gabiroba, um arbusto dos cerrados que produz frutos comestíveis e outrora muito apreciados.

Velho exemplar de murici-do-campo rebrotando após ter sido arrancado pelas máquinas.

.

.

LEIA A MATÉRIA PUBLICADA NESTE DOMINGO NO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO – CLIQUE AQUI

 

 

Ricardo Cardim

***** POST N° 250 *****

Publicado em Biodiversidade paulistana, Botânica, campos cerrados em São Paulo, cerrado em São Paulo, destruição do verde em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 6 Comentários

Compensação ambiental, obras e a biodiversidade – Análise

 
 ‘Preservação não deve considerar apenas árvores’
 
Especialista analisa proposta da USP de criar reservas para preservar vegetação de cerrado
 
Ricardo Cardim* – O Estado de S. Paulo
 

Como podemos avaliar o valor da vegetação urbana? Essa pergunta é respondida na legislação ambiental considerando um fator básico, o tamanho da planta, que geralmente corresponde a árvores. Se pensarmos somente nos serviços ambientais, essa linha de pensamento é correta. Afinal, quanto maior o porte, maiores os serviços ambientais. Entretanto, em um país megabiodiverso como o Brasil, esse pensamento é no mínimo perigoso.

São Paulo, assim como outras cidades brasileiras, herdou um vasto patrimônio de fauna e flora, de grande biodiversidade, onde originalmente milhares de espécies conviviam em complexas interações ecológicas em diferentes paisagens como a Mata Atlântica, campos-cerrados, capões de araucárias e várzeas. Passados quase 500 anos de colonização, pouco sobreviveu dessa natureza ancestral, principalmente aquelas formas de vida que não apresentavam a beleza óbvia de uma grande árvore ou o esplendor da floresta tropical.

Um caso emblemático são os campos nativos, tipo de cerrado que nomeou a metrópole nos seus primeiros tempos de São Paulo dos Campos de Piratininga. Formada em sua maioria por arbustos e ervas de diferentes espécies, essa rica vegetação de estatura baixa segue desconhecida da maioria, relegada ao título de “mato”. Entretanto, dentro do contexto ecológico e histórico, suas plantas podem ter o mesmo valor que uma figueira centenária. Exemplos são as espécies sobreviventes nos cerradinhos da Universidade de São Paulo (USP), como o murici-do-campo, fruta-de-pomba, língua-de-tucano e muitas outras, que já ocuparam extensas áreas do Município e hoje estão restritas a populações ínfimas.

Detentoras de genética resultante da evolução milenar com as condições locais, plantas assim não são substituíveis por árvores ou exemplares de mesma espécie de outras regiões, sendo formações únicas que devem ser preservadas a todo custo para essas e as futuras gerações. É urgente mudarmos a concepção de que somente árvores são passíveis de valoração ambiental, sob pena de prosseguirmos com a perda de inúmeros tesouros vegetais desconhecidos. No Brasil, a biodiversidade deve ser uma premissa fundamental para o licenciamento de obras e suas diretrizes ambientais.

A USP acerta quando promove a criação de reservas para os últimos testemunhos dos antigos Campos do Butantã, onde se assenta originalmente o seu câmpus. Tombados e abertos ao público, esses campos-cerrados poderão ser considerados museus vivos da história, cultura e botânica paulistanas.

 

* É AMBIENTALISTA

 

Publicado em Biodiversidade paulistana, Botânica, campos cerrados em São Paulo, destruição do verde em São Paulo, meio ambiente urbano em São Paulo, verticalização de São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , | 2 Comentários

Árvores cimentadas e as chuvas de verão na cidade de São Paulo

 

Podemos considerar que a primavera começou realmente no último final de semana com as primeiras chuvas “de verão” por aqui. Com ela, vem o crescimento das plantas, flores, frutos e também as costumeiras quedas de árvores. Toda a época de chuva é a mesma situação – contagem de quantas árvores caíram nas ruas, provocando acidentes e até tragédias – o que as coloca injustamente como “problema” quando na verdade são solução.

Um dos principais fatores para essa questão urbana tem a origem em um ato aparentemente inofensivo ou até “higiênico”, a impermeabilização da base da árvore com cimento ou asfalto em volta da planta. Muitos proprietários costumam “estender” suas calçadas até lá, alegando que assim não faz “sujeira” (como se terra fosse isso) e fica mais bonito. Privando as raízes do contato com o ar, água das chuvas e nutrientes vindos de matéria orgânica, a chance da árvore adoecer e ficar susceptível a pragas é enorme e, consequentemente, de cair – inclusive sobre a casa ou carro do “cimentador”. O feitiço volta para o feiticeiro.

Aqui o exemplo clássico - a base da árvore apodrecendo sufocada pelo cimento. Infelizmente cenas assim são comuns em todas as cidades brasileiras.

Enorme paineira (Ceiba speciosa) sepultada por cimento onde deveria ser jardim. Prédio da SABESP na esquina da Av. Santo Amaro x Av. Américo Brasilense, na Zona Sul.

Esse caso é tão absurdo que chega a ser cômico - asfaltamento milimetricamente caprichado em volta de mangueira dentro de estacionamento no Bairro do Paraíso.

Outro inutilidade prejudicial é a construção de muretas em volta da planta, que não recebe assim água e nutrientes. Também contribui para o aumento das enchentes, já que a água vai para a guia e não para a terra ser absorvida.

Na foto o espaço está adequado, permitindo a árvore receber o que precisa. Mas ainda é desnecessário tanto cimento em volta considerando a impermeabilização das cidades brasileiras.

E finalmente o correto. Calçada permeável ou verde respeitando o pedestre e a árvore, além de minimizar enchentes. Novas calçadas da Av. João Dias - Zona Sul.

 
 
 
Fica a dica -  Você pode ajudar muito o nosso meio ambiente e qualidade de vida  livrando nossas árvores de tanto concreto. Veja se as calçadas de sua rua estão assim.
 
Ricardo Cardim
Publicado em arborização urbana, Árvores de São Paulo, árvore urbana, árvores caídas, ruas arborizadas | Com a tag , , , , , , , , , , , , | 18 Comentários

Compensação ambiental não – compensável

No bairro do Morumbi, o cerco dos edifícios aos últimos remanescentes de Mata Atlântica - Até quando resistirão?

Complexidade compensável?

 

Imagine trocar grande parte do terreno de Mata Atlântica ancestral do Parque Trianon da Avenida Paulista por algumas milhares de mudas de árvores de espécies nativas genéricas de todo o Brasil. No lugar de uma floresta original, milenarmente complexa, em toda a sua biodiversidade típica local, com centenas de espécies vegetais de diferentes hábitos como cipós, arbustos, ervas, orquídeas, bromélias, etc… surgir um paliteiro de mudas magrelas vindas de viveiros distantes e de matrizes não-identificáveis nas sobras do terreno desmatado em volta de edifícios recém-construídos. Parece no mínimo, surreal. 

Esse cenário de catástrofe ambiental está acontecendo intensamente em várias cidades brasileiras. Na obrigação de compensar legalmente o corte de vegetação nativa urbana para mudanças no uso do solo – geralmente novos edifícios  -  plantar outras árvores no lugar não é trocar seis por meia dúzia. Em metrópoles que destruíram quase toda a sua rica cobertura vegetal original como São Paulo isso simplesmente não é compensável. Mal sabemos toda a complexidade desses ecossistemas, muito menos como reproduzí-los a contento. Sem mencionar que uma floresta ou cerrado não é composto somente de árvores, que é apenas uma parte das suas formas de vida.

Mas o pior é a irreparável perda genética dessas populações de plantas e animais que evoluíram ao longo de milhões de anos entre si  e as condições locais típicas – um patrimônio inestimável e insubstituível. Um plantio será sempre apenas um simulacro humano de uma complexa obra natural – um ambiente artificial como os prédios que acompanham.

Quase nada sobrou na metrópole paulistana da vegetação original, sejam campos cerrados ou florestas,  e os poucos remanescentes deveriam ser no mínimo tombados – e não construídos - para que, senão agora,  ao menos no futuro as próximas gerações conscientes possam usar esses fragmentos para reproduzir suas plantas e reintroduzí-las de volta na malha urbana através da arborização urbana e paisagismo,  possibilitando uma cidade com o verde e meio ambiente realmente sustentáveis.

 

Mata Atlântica original da cidade de São Paulo - centenas, senão milhares de formas de vida, em interações milenares. Como podem ser compensadas?

 

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, árvores, Biodiversidade paulistana, campos cerrados em São Paulo, destruição do verde em São Paulo, Mata Atlântica, meio ambiente urbano em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , | 9 Comentários

Dia da árvore – o perigo de retrocesso do Código Florestal

 

 

Justamente no dia em que lembramos da importância da árvore e de todas as plantas para a nossa sobrevivência, possivelmente hoje será a votação do relatório do Código Florestal na CCJ do Senado.

No atual momento do planeta, parece inacreditável o Brasil ter de passar por uma discussão como as alterações (para pior) do Código Florestal. Novamente temos a velha situação dos interesses privados querendo prevalecer sobre o coletivo.

Durante os últimos cinco séculos não soubemos cuidar da nossa fantástica herança recebida – liderança em biodiversidade e disponibilidade de água – questões hoje consideradas de segurança nacional em escala global. Se a pressão exercida por grupos sem o menor conhecimento do funcionamento dos Biomas brasileiros prevalecer, podemos realmente ter em breve um “apagão” desses elementos vitais para a sobrevivência humana.

Colocar a moderna agropecuária e a preservação da vegetação nativa como incompatíveis é no mínimo uma manobra antiquada e tendenciosa. A tecnologia – que já possuímos de ponta em muitos setores agrícolas – pode e deve ser o norte da produção sustentável em harmonia com o equilíbrio ambiental.

Preocupante também na proposta de alteração do código é a anistia. Grande injustiça com os proprietários e suas gerações anteriores que respeitaram a lei a todo o custo e preservaram. O vizinho que destruiu tudo e lucrou produzindo com essa área desmatada ficará em visível vantagem – e também os especuladores de terras. Somente isso já coloca em alto risco a biodiversidade nativa sobrevivente.

Em um cenário que se deslumbra de agravamento das condições climáticas extremas, como ficarão as encostas e corpos de água sem a vegetação nativa? A resposta já nos foi dada nesses últimos anos em eventos como os do Estado do Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Outra possibilidade absurda é a eminente destruição dos poucos remanescentes atuais, que resistiram por força da legislação após a abertura predatória das fronteiras agrícolas e conservam as últimas populações de plantas e animais nativos de determinados locais. Esses testemunhos poderão se extinguir para sempre, causando um dano irreparável para as próximas gerações.

Para trás seguem algum setores políticos brasileiros, e se nada for feito, com eles seguiremos todos no mesmo rumo.

 

Ricardo Cardim

 

Publicado em árvores, árvores brasileiras, Biodiversidade paulistana, cerrado em São Paulo, Mata Atlântica | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , | 7 Comentários

Dia da árvore – homenagem aos muricis-do-campo paulistanos

Botanicamente falando, o murici-do-campo (Byrsonima intermedia) não pode ser considerado uma árvore, está mais para um arbusto. Essa planta frutífera típica dos cerrados também não apresenta a majestade óbvia de um jequitibá ou mesmo a importância cultural do pau-brasil, mas é aqui a homenageada nesse dia das árvores como lembrança de que toda a vegetação, seja ela capim, arbusto, cipó ou árvore, é de fundamental importância para a nossa existência e saúde, assim como de todas as outras formas de vida.

O murici tem outro aspecto de grande destaque – ele é um arbusto nativo dos antigos campos naturais da cidade de São Paulo e no passado cobriu fartas extensões de onde está a atual metrópole. E talvez, justamente por não ter sido lembrado ou valorizado, sem a visibilidade de uma frondosa árvore, que foi sendo derrubado e sumindo do seu lar herdado em milhares e milhares de anos.

O resultado foi que no começo deste século XXI ele está praticamente extinto na cidade. A única população descendente desse passado dentro da malha urbana está em um pequeno trecho na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (USP) onde atualmente lutamos para que seja transformada em sua última reserva.

Abundante produtor de belas flores, cobria os campos paulistanos de amarelo-ouro na floração, mas isso foi antes que a cidade elegesse a azaléia originária do Japão como flor símbolo de São Paulo. Seus esquecidos frutinhos de casca brilhante são comestíveis e já foram muito apreciados por aqui e faziam parte da dieta principalmente das crianças e de diversos pássaros e animais nativos.

Aprender a plantar o murici não é fácil. Dentro do nosso viveirinho tentei de todas as formas possíveis, segui a literatura científica disponível, solos diferentes, iluminações, mas nada de suas sementes germinarem. Reprodução por estacas (galhos) também não formou mudas sadias. E o engraçado é que no seu local nativo – o cerrado da USP – ela aparece espontaneamente em uma fartura de novas plantinhas. Salvá-lo realmente não parece simples.

Quantas formas de vidas ancestrais – inclusive úteis – nós perdemos por só enxergarmos o óbvio?

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores, árvores frutíferas, Biodiversidade paulistana, campos cerrados em São Paulo, cerrado em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 8 Comentários

A cidade de São Paulo ainda tem árvores centenárias da floresta primária ou virgem?

Quando avistamos fragmentos de Mata Atlântica em São Paulo tendemos a achar que aquela exuberância de folhas  e formas de nossa biodiversidade é uma floresta original preservada, que chegou aos dias atuais praticamente intocada. Na verdade, isso é quase sempre uma ilusão. Quase todas as matas próximas ou dentro do município de São Paulo são apenas “sombras” da riqueza e porte de um passado já distante – podendo ser chamadas de secundárias ou capoeiras.

O termo “floresta virgem” era designado para aquelas matas que nunca tinham sofrido a ação do machado ou fogo -  e que possuiam ainda madeiras nobres, ditas de “lei”. Hoje, depois de séculos de colonização predatória, trechos de Mata Atlântica assim desapareceram. O que sobrou foram principalmente alguns pequenos pedaços com árvores da época primitiva, centenárias muitas vezes, e dão uma boa idéia do que perdemos.

Esses testemunhos ainda podem ser observados em alguns lugares da região metropolitana de São Paulo (principalmente na Serra da Cantareira e do Mar) e até na região central, como no Parque Trianon, trecho entre a Av.Paulista e Al. Casa Branca. Abaixo, alguns exemplos.

Esse exemplar provavelmente centenário na Serra da Cantareira mostra um formato típico das árvores da floresta primária, tronco reto e alto, repleto de plantas epífitas como bromélias e aráceas. Em regiões de matas mais bem preservadas do Estado como o Vale do Ribeira, a mata costuma ser repleta de árvores deste porte.

Velho jatobá (Hymenaea courbaril) centenário no Parque Trianon na Avenida Paulista

Guatambu ou peroba (Aspidosperma sp.) na trilha da Pedra Grande - Serra da Cantareira.

Podendo ser considerado o testemunho mais bem preservado das Mata Atlântica virgem paulistana, o jequitibá-branco (Cariniana estrelensis), fica também no Parque Trianon, próximo a cerca da Alameda Casa Branca e apresenta mais de 30 metros de altura.

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores, Biodiversidade paulistana, Mata Atlântica | Com a tag , , , , , , , , , , , , , | 4 Comentários

A curiosa mucuna ou pó-de-mico

A vagem ou legume da mucuna com seus abundantes pelos

 Uma planta que pertence as brincadeiras tradicionais do antigo Brasil rural e semi-urbano é o pó-de-mico ou mucuna (Mucuna sp.). As crianças do passado conseguiam encontrar facilmente essa trepadeira nos lugares de Mata Altântica e, da sua grande vagem (legume) raspavam os pelos (tricomas) que a recobriam até acumular um pozinho fino.

O pó formado por esses pelinhos é extremamente urticante, e rendia muita coceira ao coitado que o recebesse. Era um passatempo usual nas salas de aula ou lugares de aglomeração humana, principalmente nas cidades menores. Essa coceira é graças a uma enzima de nome mucunaína,  presente nos frutos, e fazia a vítima se coçar que nem um macaco, daí o nome.

As sementes de várias espécies de mucunas são extremamente ornamentais, sendo usadas em diversos tipos de artesanato, principalmente nas cidades litorâneas com rios nas praias, que recebem as sementes duras e brilhantes carregadas dos rios que cortam a floresta em direção ao mar. Muita gente conhece essas sementes de encontros fortuitos na areia e as guarda, sem imaginar de que tipo de planta veio.

Hoje, infelizmente é uma trepadeira muito difícil de se observar nas matas sobreviventes na metrópole.

Sementes de mucuna e olho-de-boi (Dioclea sp.)

 

Ricardo Cardim

 

Publicado em Botânica, Mata Atlântica | Com a tag , , , , , , , , , | 1 Comentário

Ilhas de biodiversidade nas cidades – salvando a natureza do desconhecimento

O que ouvimos normalmente sobre biodiversidade e meio ambiente sempre nos leva a lembrar de densas florestas tropicais, como a Amazônica ou Mata Atlântica. Comumente, outros tipos de Biomas como o Cerrado e os Campos Sulinos não  são valorizados e consequentemente preservados, ainda mais se estiverem em áreas urbanas, já que não despertam a atenção da população como a beleza óbvia das florestas.

Fato injusto. Essas vegetações mais baixas, de formas muitas vezes retorcidas, apresentam uma beleza particular e grande complexidade biológica, sendo o resultado de milênios de evolução, com espécies de plantas e animais típicos que possuem tanto valor ambiental quanto as florestas.

No Rio de Janeiro me chamou a atenção o projeto em parceria com a iniciativa privada de replantar a restinga (uma vegetação biodiversa das regiões arenosas do litoral da Mata Atlântica) na praia de Ipanema, hoje muito destruída e desconhecida da maioria das pessoas.

 

Restinga replantada depois de seu desaparecimento há mais de 50 anos em Ipanema.

 

Assim como a restinga no Rio, em São Paulo temos os Campos Cerrados, um tipo de cerrado que chegou a nomear a cidade nos primeiros séculos de “São Paulo dos Campos de Piratininga”.

Áreas verdes da metrópole deveriam ganhar recriações desse ambiente paulistano ameaçado, de forma a divulgar sua existência e preservação. Bons lugares seriam o Parque Villa Lobos, Ibirapuera, do Carmo e do Povo, onde existem grandes espaços gramados e ensolarados aptos a receber  essas plantas nativas. Repetindo o clichê – “Só preservamos aquilo que conhecemos”.

 

Campos cerrados no remanescente da Cidade Universitária da USP em São Paulo - poderia estar em outras áreas verdes da cidade para divulgar sua importância e preservação.

 

No Jardim Botânico de Buenos Aires, Argentina, a recriação dos pampas - trabalho de fundamental importância para a preservação.

 

Ricardo Cardim

 

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Biodiversidade paulistana, campos cerrados em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , | 5 Comentários

Última semana para participar do concurso de árvores de São Paulo promovido pela Prefeitura

 

Participem da 6° edição do concurso de fotografias Árvores da Cidade de São Paulo que recebe inscrições até o dia 31, próxima quarta-feira, e ajudem a divulgar a importância e beleza do verde paulistano. Leiam o regulamento no link abaixo:

 

PARTICIPAR DO CONCURSO -CLIQUE AQUI

 

 

Ricardo Cardim

Publicado em arborização urbana, Árvores de São Paulo | Com a tag , , , , , | 2 Comentários

Coluna “Natureza Urbana ” com Ricardo Cardim na Rádio Estadão ESPN

O trabalho desenvolvido aqui nos Amigos das Árvores de São Paulo agora terá um novo espaço na Rádio Estadão ESPN, com a coluna “Natureza Urbana” onde será abordado o cotidiano ambiental das cidades brasileiras com foco em São Paulo, além de curiosidades históricas, botânicas e culturais.

Participem, enviem sugestões para – metropole@estadaoespn.com.br

 

NATUREZA URBANA – Toda terça e quinta, às 10:20 da manhã no 92.9 FM e 700 AM.

Site: http://radio.estadao.com.br/colunistas/

Espero vocês lá ajudando a defender o nosso verde urbano!!!

Ricardo Cardim

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores de São Paulo | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Os capins nativos de São Paulo estão quase extintos

Com menor capacidade de chamar a nossa atenção comparado as árvores, o capim sempre foi esquecido dentro do contexto normal de ”preservação ecológica”, sendo relegado mesmo ao pejorativo “mato” até por quem gosta de natureza.

Triste injustiça que não deixa reparamos um fato muito sério e comum na cidade de São Paulo como em vários outros lugares – a quase extinção das espécies nativas de capins, substituídas pela competição desigual das espécies estrangeiras invasoras, que são comumente usadas em pastos para pecuária e forração de taludes. Como resultado, a outrora enorme variedade de capins nativos foram substituídas por duas principalmente, o capim-braquiária (Brachiaria sp.)  e o capim-gordura (Melinis sp.), ambos de origem africana.

Quando a cidade de São Paulo ainda era uma vila sobre a colina entre o rio Anhangabaú e Tamanduateí, tanto os ”Campos de Piratininga” quanto as extensas várzeas, apresentavam inúmeras espécies diferentes de capins, como o ornamental barba-de-bode (Aristida sp.) e o rabo-de-burro (Andropogon sp.). Hoje, ver uma touceira do barba-de-bode, considerado “praga” pelo Botânico Alfred Usteri em 1911, é coisa digna de gincana na metrópole. Afogado pelos exóticos, sobraram alguns no Parque Usteri, Cidade Universitária e Pico do Jaraguá. Dentro dos campos cerrados que preservamos na Universidade de São Paulo, só depois de muitas roçadas é que ele voltou a dominar sobre o braquiária e gordura.

O preocupante sobre esse tipo de biodiversidade esquecida é que a atenção pode chegar tarde demais, quando mais nada nativo sobrar.

O africano capim-braquiária (trazido para o Brasil em 1970) infestando área de campos cerrados no Parque Usteri, Zona Oeste, sem deixar espaço vital para os capins nativos e outras plantas.

 

Outro invasor forte, o capim-gordura (África), recobrindo área de cerrado na Cidade Universitária. Ele chega a "escalar" arbustos de até 1,5 metro, afogando-os na sua sombra.

  

O paulistano capim barba-de-bode, quase desaparecido, sobrevivente em poucos lugares da metrópole. Esse da foto foi liberado da braquiária pelo nosso manejo na área da USP.

 

Algumas vezes o capim rabo-de-burro (pelo formato de suas inflorescências semelhantes a cauda desse animal) forma populações em meio aos estrangeiros. Esses estão no Parque Usteri, na Zona Oeste.

  

Dentro do viveiro "informal" da ação Amigos das Árvores de SP, reproduzi tanto o barba-de-bode quanto o rabo-de-burro de matrizes sobreviventes da genética ancestral paulistana. Poderiam ser usados no paisagismo, no lugar de "cópias" estrangeiras, como o capim-do-texas.

 
 
 
 
 
Ricardo Cardim 
 
Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Biodiversidade paulistana, campos cerrados em São Paulo, cerrado em São Paulo, espécies invasoras, meio ambiente urbano em São Paulo, plantas invasoras | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 6 Comentários

Publicado em árvores | Deixe um comentário

Paisagismo sustentável com espécies ameaçadas da cidade de São Paulo

Até o dia 6 de agosto na EXPOLAZER, no Expo Center Norte, estará à mostra um jardim realizado somente com plantas nativas ameaçadas de extinção da vegetação original da cidade de São Paulo. A convite do paisagista Edu Lotfi, forneci a consultoria de espécies, composição biológica, fotos e textos explicativos. Abaixo a apresentação do projeto:

Área com 25 m² representando a riqueza de plantas nativas da biodiversidade paulistana, com dois biomas - Mata Atlântica e Cerrado.

 O que podemos chamar de sustentável em paisagismo? Essa pergunta se torna ainda mais importante se considerarmos o fato de o Brasil ser o país com a maior biodiversidade do planeta. Antes de ser jardim, um terreno já foi natureza, com inúmeras plantas e animais em complexas interações. Respeitar esse rico passado e valorizar a nossa herança natural, aliando a beleza com a funcionalidade ecológica é conseguir esse objetivo. E essa foi a proposta deste espaço.
 
No Ano Internacional das Florestas e, estando São Paulo no domínio da Mata Atlântica, a protagonista do projeto é uma planta em risco de extinção, o palmito-jussara (Euterpe edulis) assim como encontrado originalmente na floresta – uma população de diferentes tamanhos e idades, trazendo um interessante efeito plástico. Para as partes de vegetação baixa, resgatou-se outra bela planta ameaçada, vinda dos cerrados paulistanos, a língua-de-tucano (Eryngium horridum) hoje quase desaparecida em estado nativo na metrópole.
 
O paisagismo urbano sustentável é capaz de resgatar a biodiversidade ancestral e consequentemente a qualidade de vida e bem-estar dos habitantes das cidades. 

Uma trilha atravessa a vegetação, onde à esquerda pode ser observado um palmital de jussaras de diferentes idades e tamanhos, assim como encontrados em florestas paulistanas sobreviventes, como no Pico do Jaraguá.

 

Na parte da frente, presença de diversas frutíferas das Mata Atlântica e Cerrado de grande apelo ornamental e capazes de melhorar o meio ambiente urbano.

 

Trecho com plantas típicas dos campos de cerrado paulistanos (Campos de Piratininga). Araça-do-campo, línga-de-tucano e barba-de-bode vindas do viveiro dos Amigos das Árvores de São Paulo.

 No sábado, 6, a entrada é livre das 10 às 17 hs. Visitem-nos e conheça como a nossa natureza também é bonita e útil!

Localização -

Expo Center Norte
Rua José Bernardo Pinto, 333
São Paulo – SP

 Ricardo Cardim

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Biodiversidade paulistana, paisagismo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , | 6 Comentários

A incansável luta entre o verde e o concreto na cidade de São Paulo

Frase que gosto de repetir é “Até quando o verde da cidade cederá espaço para carros e construções?” Acredito refletir bem o que ocorreu e ainda continua acontecendo com a cidade que virou metrópole em pouco mais de um século.

No último mês reparei em uma situação bem emblemática dessa luta constante, onde no final, o que está em jogo é a nossa saúde e qualidade de vida. Nas obras de um acesso da pista expressa para a local da marginal do Rio Pinheiros, próxima a nova estação de metrô e da ponte Eusébio Matoso no sentido Zona Norte, existe no canteiro central uma série de belas paineiras (Ceiba speciosa) ainda jovens, plantadas há poucos anos e crescendo bem e com saúde, mesmo em todo aquele caos.

Nas atuais obras de ampliação e novos muros de concreto, as arvores foram poupadas, fruto dos novos tempos, mas… Bem, as fotos falam por si só.

 

Quem ganhará essa luta? Eu torço e acredito na paineira, espécie de tronco especialmente robusto (já vi exemplares com 2 metros de diâmetro), que não fará muito esforço para em alguns anos derrubar esse “encosto”.

Ricardo Cardim

Publicado em arborização urbana, Árvores de São Paulo, árvores, verticalização de São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , | 9 Comentários

As araucárias também são paulistanas

Poucos sabem, mas a araucária é uma espécie que existiu em grande quantidade onde era a cidade de São Paulo. Para filmar o Quadro Verde do Bom Dia São Paulo percorremos alguns dos poucos locais onde ainda existem exemplares.

Também plantamos uma muda de araucária na frente do velho casarão do bandeirante Afonso Sardinha, do século XVII, situado nas antigas minas de ouro do Pico do Jaraguá. O objetivo é reconstituir uma paisagem típica do passado – o pinheiro, casarão colonial e pomar - conjunto histórico hoje desaparecido na metrópole.

Com Ananda Apple no Pico do Jaraguá. Muda de araucária vinda do viveiro da ação Amigos das Árvores de São Paulo.

Confira o vídeo sobre a araucária paulistana, clique no link abaixo:

 

Araucárias na cidade de São Paulo – Bom Dia São Paulo

 

Ricardo Cardim

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores | Com a tag , , , , | 7 Comentários

Siga o meio ambiente urbano de São Paulo no Twitter – @ricardocardim

Voltamos ao Twitter!! E agora podendo mostrar o meio ambiente da metrópole paulistana em tempo real e direto das ruas, graças a um novo equipamento.

Sigam-nos!!

http://twitter.com/#!/ricardocardim

@RicardoCardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Ricardo Cardim | Com a tag , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Os campos cerrados do Pico do Jaraguá – reduto da biodiversidade nativa ancestral

 

Mesmo sendo presença constante na paisagem paulistana, o Pico do Jaraguá, com seus 1135 metros de altitude, é ainda injustamente um desconhecido da maioria dos habitantes de São Paulo. Em outras épocas suas lavras de ouro foram lendárias e atrairam muitos garimpeiros e curiosos, como viajantes europeus do século XIX. Entretanto, hoje sua principal riqueza é outra - a biodiversidade.

O ponto mais elevado da metrópole conserva nas suas porções mais altas importantes relíquias da vegetação do passado. A partir da Mata Atlântica que recobre as colinas que circundam o monte, entra-se em uma zona de capinzais com alguns arbustos onde aparecem os campos cerrados, com os mesmos elementos descritos pelos antigos Botânicos Usteri (1911) e Joly (1940) para a cidade de São Paulo. Plantas típicas que também existem em outras manchas como o Parque do Juquery e áreas urbanas como o Parque Alfred Usteri e o “campinho da Universidade de São Paulo – USP” (em processo de preservação).

Esses elementos característicos dos campos cerrados no Pico do Jaraguá, aliadas a outras manchas próximas e dentro da cidade de São Paulo sugerem raros remanescentes dos ”Campos de Piratininga” , vegetação nativa ancestral quase desaparecida tanto fisicamente quanto da memória dos atuais paulistanos. 

Subindo em direção ao cume, os campos cerrados apresentam sua composição típica, com arbustos e pequenas árvores. Ao longe, a metrópole em sua imensidão.

 

Mais para o alto, a vegetação raleia, ficando restrita ao capinzal, com o nativo barba-de-bode dividindo espaço entre os invasores africanos capim-gordura e braquiária. Elementos de campos montanos também surgem.

 

A orelha-de-onça-do-cerrado (Leandra sp.) quase no cume. Atrás, ampla extensão de campos margeados de floresta, paisagem de um passado distante e quase inacreditável perto da maior cidade brasileira, sendo visualmente semelhante a aquelas encontradas na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais.

 

Planta símbolo dos "Campos de Piratininga" surge sorridente a língua-de-tucano (Eryngium horridum), presente também nos outros remanescentes de campos cerrados da região metropolitana de São Paulo.

 

O ameaçado araça-do-campo (Psidium guineense), que nomeou o "caminho do araça" e depois "cemitério do araça". Existe também na área da USP.

 

Produtor de saborosos frutos nos campos, os deste murici-do-campo (Byrsonima intermedia) estavam maduros. A única população dessa espécie conhecida dentro da malha urbana de São Paulo está na área da USP.

Formação muito semelhante as fotografias em Santana (1911) e Butantã (1940) com touceiras de barba-de-bode e língua-de-tucano.

 

ipê-amarelo-do-cerrado (Handroanthus ocraceae). Só conheço exemplares nativos dessa espécie na área urbana do município de São Paulo na USP.

 

O desequilíbrio da dinâmica original da relação campos nativos x floresta, está levando ao predomínio desta segunda sobre o primeiro. Antes de ali ser reserva, o fogo era um importante controlador do equilíbrio entre as duas vegetações e nesse caso, benéfico com a periodicidade certa. Deve ser estudada pela direção do parque e pesquisadores a possibilidade de um manejo controlado, sob pena de perdermos a biodiversidade dos campos.

 
 
Vale muito a pena conhecer o Parque. Para chegar, siga pela Via Anhanguera, entrando no Km 18 e seguindo pela Estrada Turística do Jaraguá até a portaria, onde pode subir até o cume à pé, pela Trilha do Pai Zé - de dificuldade moderada  – e conhecer os campos cerrados. De carro também é possível ir ao cume, por estrada bem asfaltada. Tel.: (11) 3941-2162/3943-5222
Horário: Todas os dias, das 7h às 17h.
 
Ricardo Cardim
 
 
 
 
Publicado em amigos das árvores de São Paulo, árvores, Biodiversidade paulistana, Botânica, campos cerrados em São Paulo, cerrado em São Paulo, espécies invasoras, História de São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 10 Comentários

As árvores nativas paulistanas mais comuns nas ruas

 

Por fatores culturais e “técnicos” quase toda a vegetação adulta hoje na cidade de São Paulo não é nativa do município, o que gerou um verdadeiro extermínio dos bichos e plantas presentes no terreno original da cidade antes da urbanização. Infelizmente, a maioria dessa biodiversidade nem chegou a ser estudada adequadamente, trazendo uma perda irreparável e que continua acontecendo.

Dentre as árvores mais comuns na arborização urbana do município, podemos citar três relativamente comuns e nativas da vegetação original paulistana  – que ainda perdem feio para as bolivianas tipuanas e os asiáticos ficus - e  produtoras de frutos comestíveis importantes para o equilíbrio do meio ambiente urbano. São elas:

1. jerivá (Syagrus romanzoffiana)

Os doces frutos do jerivá, conhecidos como "coquinhos"

Jerivás idosos nas matas do Jardim Botânico de São Paulo

 Palmeira que compõe os jardins paulistanos desde a época colonial. De tão comum nas extintas florestas nativas do município, batizou um importante rio de “Jurubatuba” ou ”lugar com muitas palmeiras-jerivás” em tupi. Hoje é o conhecido rio Pinheiros. Planta excelente para a arborização urbana, acompanhando árvores,  pois além de estética, fornece frutos saborosos para os humanos e fauna. Antigamente (antes de irem para os apartamentos e computadores) as crianças consumiam não só a carne do coquinho amarelo, mas também o seu interior, que lembra o sabor de nozes.

 
2. pitangueira (Eugenia uniflora)

Cena colonial paulistana - pitangas maduras com casarão da época dos bandeirantes atrás. Casa do Butantã, na Zona Oeste.

Pitangueira adulta no Jardim Europa.

Fez a alegria dos antigos pomares da cidade de São Paulo. Os índios já a consumiam e no passado participava de doces, compotas e cachaça, além de catada no pé. Hoje é comum nos bairros mais arborizados de São Paulo, mas quem as planta não é o homem e sim os pássaros, que bombardeam a cidade com as sementes. Árvore excelente para ruas estreitas e fiação aérea.

 3. aroeira-pimenteira (Schinus terebinthifolius)

Aroeira florindo na beira da poluidíssima marginal Tietê.

Aroeira-pimenteira adulta em seu formato típico nas ruas.

Árvore que virou “queridinha” da gastronomia graças aos seus frutos usados para temperar pratos, é bastante comum nas infelizmente escassas capoeiras da Mata Atlântica paulistana. Seus frutos também são apreciados pelos pássaros e, com seu porte comedido, também pode ser plantada em ruas estreitas e fiação aérea. Resiste bem a poluição, como podemos ver na foto de um exemplar vivente na beira da caótica marginal Tietê.

Ainda existem muitas espécies excelentes para uma arborização urbana ecologicamente sustentável (com nativas locais) e que não são comumente usadas. Exemplos são a copaíba (Copaifera langsdorffii) cambuci (Campomanesia phaea) e a canelinha (Nectandra megapotamica). Para maiores informações e espécies, visite nossa página “Contato”.

 

Ricardo Cardim

Publicado em arborização urbana, Árvores de São Paulo, árvore urbana, árvores, árvores brasileiras, árvores frutíferas, árvores nativas, Biodiversidade paulistana, guia de árvores em São Paulo, meio ambiente urbano em São Paulo, plantio de árvores em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

Publicado em árvores | 1 Comentário

A cidade de São Paulo, suas árvores e vegetação nas antigas fotografias

A cidade de São Paulo dos anos 1930 pouco se parecia com a metrópole atual. Ainda guardava notas campestres e tinha poucos prédios despontando entre um mar de construções baixas. Visitando o arquivo da Biblioteca Mário de Andrade, do fotográfo Benedito Duarte, encontrei algumas imagens interessantes das árvores e vegetação da cidade que começava a se transformar.

Quem diria... Na atual Rua Oscar Freire - um dos endereços mais sofisticados da metrópole atual - existia em 1938 uma "privada coletiva do tipo fossa no fundo do quintal" conforme a legenda do fotógrafo Benedito Duarte. Note o capim vigoroso em volta, provavelmente fruto da abundante "adubação"que recebia. Tudo nos arredores ainda era rural, com campos e algumas árvores espontâneas.

Na frente do Palácio das Indústrias em 1937 existiam muitos jacarandás-mimosos (Jacaranda mimosaefolia). Árvores de origem argentina comumente plantadas na época. As velhas árvores da espécie na cidade atual são dessa época.

O progresso da cidade de São Paulo com seus letreiros iluminados, motivo de orgulho para a população da época (e atualmente de alívio da sua ausência) com as palmeiras-imperiais na frente, que até hoje vivem na praça do Teatro Municipal, no centro.

No vale do Anhangabaú em 1937, verdejavam as palmeiras-seafórtia, plantas de origem australiana que foram introduzidas para o paisagismo e se tornaram invasoras agressivas de nossa biodiversidade nativa, causando sério desequilíbrio ecológico na Mata Atlântica sobrevivente da cidade - a ponto de a Universidade de São Paulo e a Prefeitura fazerem um plano para seu controle e erradicação.

 

Todas as fotos acima são do acervo da Biblioteca Mário de Andrade, que possui uma ferramenta muito interessante em seu site para a visualização do extenso arquivo de fotografias da cidade de São Paulo, antes de difícil acesso para o público. Para conhecer, clique aqui.

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, espécies invasoras, História de São Paulo, São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , | 3 Comentários

A antiga casa da árvore do Bairro do Bexiga

São Paulo ainda conserva interessantes surpresas na sua parte mais antiga. Na rua dos Ingleses, uma pequena casa  espremida entre dois sobrados chama a atenção pela sua aparência, digamos, no mínimo, interessante. Podemos chamá-la de “casa da árvore” graças a floresta em alto-relevo que enfeita toda a fachada, isso sem mencionar o muro, de galhos em cimento pré-moldado.

Há cerca de um século era comum  imitar elementos da natureza em cimento para enfeitar áreas externas, como corrimãos de troncos e galhos de árvores em cimento, assim como pedras e bancos. Podemos ver exemplos desse modismo no Parque da Luz. Pela aparência da casa, parece ser uma residência do começo do século passado, onde os imigrantes italianos que dominavam o Bairro estabeleceram uma arquitetura marcada pelo ecletismo. Mas uma coisa deve ser verdade – o proprietário gostava de árvores e florestas.

 Não achei nenhum registro digno de nota sobre ela, e fica aqui aberto para quem tiver informações. Endereço – Rua dos Ingleses, 115, Bexiga.

Floresta de cimento

O melhor é que ela conseguiu sobreviver ao ímpeto constante de renovação de São Paulo - responsável pela destruição e descaracterização de muitas construções antigas paulistanas. Meus parabéns ao proprietário pela preservação!

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, História de São Paulo, São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , | 2 Comentários

As árvores nativas de São Paulo e sua fauna associada nas xilogravuras de Ângela Leite

Poucos sabem captar tão bem a essência de nossa biodiversidade nativa como a artista Ângela Leite. Suas xilogravuras (técnica de impressão onde desenhos esculpidos na madeira são passados para o papel) rivalizam com a beleza das árvores doadoras das velhas peças de madeira que ela busca em demolições para compor suas obras. Cedros, imbuias e mognos são vagarosamente trabalhados até criar composições que retratam a flora e fauna em suas mais ricas interações.

Essa xilogravura de uma araucária consegue passar a avançada idade do exemplar.

Visitei sua oficina em uma casa cercada pelas árvores no bairro do Morumbi, onde contou a luta para preservá-las das podas da Eletropaulo e de outras ameaças urbanas. Ambientalista e grande conhecedora de nossas plantas e animais, realizou obras com um nível de precisão impressionante, como nas gravuras que retratam as mudas do chão da Mata Atlântica.

Jequitibá-rosa, a árvore símbolo do Estado de São Paulo

 

Tapeti nas jussaras. Esse coelho nativo da Mata Atlântica gosta de se alimentar dos brotos da palmeira jussara.

 

Casal de sabiaca na jussara. Feliz composição à nanquim com o nativo palmito jussara, que já cobriu grandes extensões da cidade de São Paulo. Hoje está quase extinto na metrópole.

O trabalho de Ângela Leite precisa ser mais divulgado. Ela disponibiliza suas xilogravuras não só em quadros emoldurados com peroba vinda de demolição, mas também em belas camisetas. Visite seu site:

Obras de Ângela Leite

 

Ricardo Cardim

Publicado em Árvores de São Paulo, árvores, Biodiversidade paulistana | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , | 6 Comentários

Trilha urbana no Ibirapuera

Agradeço à todos que estiveram no nosso passeio pelas árvores do Ibirapuera nesse último sábado. Obrigado também a TV Cultura e Rádio Eldorado, que divulgaram o trabalho.

Começamos o passeio pelos antigos eucaliptos plantados na época em que todo o parque era uma várzea e, no caminho até o Viveiro Manequinho Lopes encontramos várias árvores muito interessantes, como embaúbas, pau-brasil e cambucá.

 

O acolhedor ceboleiro foi o fechamento da nossa "trilha urbana". Até a próxima!

 

 

Ricardo Cardim

Publicado em árvores | Com a tag , , , , , , , | 2 Comentários

Participe no sábado às 10 hs do passeio pelas árvores do Ibirapuera na Virada Sustentável

 

Venha conhecer as árvores que habitam o parque mais querido de São Paulo e suas espécies, curiosidades e história. O encontro será este sábado, 4, às 10 hs da manhã no portão 8, em frente a Avenida Juscelino Kubitscheck e República do Líbano. O evento faz parte da Virada Sustentável, que acontece nesse final de semana.

Síntese da arborização paulistana no último século, o Parque do Ibirapuera guarda uma enorme diversidade de árvores exóticas e nativas com aspectos muito interessantes. A idéia é irmos conhecendo as árvores desde os eucaliptos do Portão 8 até o ceboleiro do Viveiro Manequinho Lopes.  Participação gratuita!!

 

Ponto de encontro - Ibirapuera no Portão 8 às 10 hs
Ponto de encontro – Ibirapuera no Portão 8 às 10 hs

Ricardo Cardim

 

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores de São Paulo | Com a tag , , , , , | 3 Comentários

Mansão e árvores centenárias aguardam desaparecer na Avenida Paulista

 

 

Ela é a casa mais antiga sobrevivente dos tempos dos “Barões do Café” na Avenida Paulista. Pertenceu a Joaquim Franco de Mello, que a edificou em 1905 e ainda conserva no pedaço de quintal remanescente um grupo de grandes árvores nativas da Mata do Caaguaçu, outrora senhora de toda a extensão da avenida.

Mansão de grande luxo e imponência, certamente já teve dias melhores. Após diversos usos recentes completamente inadequados como feiras de artesanato e até “festas de arromba” está infelizmente e literalmente, caindo aos pedaços. É possível ver em frestas, seus papéis de parede importados da Europa caindo das paredes. Mas suas árvores, embora senhoras de idade avançada, continuam com boa saúde.

Como vizinha de muro com o Parque Mário Covas é de se surpreender como ainda não foi restaurada e anexada a essa área pública. Ouço há muitos anos desculpas dos governantes nos jornais relatando entraves burocráticos e de espólio dos proprietários como desculpa para o seu abandono. Até quando vamos esperar alguma decisão – quando a velha casa desmoronar e com ela parte importante de nossa história? Ou quando inventarem um novo shopping e torre de escritórios como no finado terreno da extinta Mansão Matarazzo alegando que o imóvel é “irrecuperável”?

Com um novo Centro Cultural no casarão e sua fusão no Parque Mário Covas, ganham todos. A população, o turismo, a cultura e história paulistanas, e também o meio ambiente e biodiversidade.

Quando esse muro será derrubado e tudo entregue aos paulistanos?

 

Ricardo Cardim

 

 

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, Biodiversidade paulistana, História de São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , | 8 Comentários

Código Florestal – ameaça real de retrocesso histórico

 

 

Graças ao fisiologismo da Câmara dos deputados, pelo o que tudo indica, o futuro da  água e biodiversidade brasileira estará, literalmente, nas mãos da Presidente Dilma nos próximos dias. Os dois elementos – água e biodiversidade – hoje considerados em escala internacional questão de segurança nacional para o atual século, podem simplesmente ser inviabilizados no Brasil, paradoxalmente o País mais rico em ambos. Decisões sérias estão sendo tomadas por pessoas que não conhecem a dinâmica dos nossos biomas.

Fato marcante da alteração do código é a injustiça com os proprietários e suas gerações anteriores que respeitaram a lei à todo o custo e preservaram. O vizinho que destruiu tudo e lucrou produzindo com essa área desmatada ficará em visível vantagem – e também os especuladores de terras. Somente isso já coloca em alto risco a biodiversidade nativa sobrevivente.

Sim, a obrigação de recompor a vegetação desmatada ilegalmente pode em raros casos atrapalhar a pequena  produção familiar (pequena mesmo, com 10 ha) em algumas propriedades do Sul e Sudeste e pode se ter uma flexibilidade técnica. Entretanto, na grande maioria das áreas não, e sem o replantio da APPs, perderemos a sobrevivência a longo prazo das matas fragmentadas, já que não serão recompostas e nem conectadas formando “corredores florestais” - garantia de manutenção da fauna responsável pela disseminação de novas árvores e biodiversidade.

A tecnologia e sustentabilidade devem ser o norte da produção moderna, com um equilíbrio entre vegetação nativa e agropecuária – de forma ao sistema permanecer estável e produtivo ao longo do tempo. E como se fará agropecuária sem água? Sancionada essa lei, esse será certamente o futuro. Isso sem citar eventuais mudanças climáticas já no horizonte próximo.

Na contra-mão da história segue alguns setores políticos do País e, se nada for feito, em seu rastro a perda de nossa incrível biodiversidade e abundância de água. Para os próximos anos teremos um “apagão” da água, biodiversidade e alimentos?

 Assinem o manifesto para impedirmos esse retrocesso – clique no link abaixo -

http://www.avaaz.org/po/codigo_florestal_urgente

 

Ricardo Cardim

 

 

Obs. Desculpem a fuga na temática do Blog, mas esse assunto é de extrema importância e pode inclusive prejudicar o meio ambiente urbano também.

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Mata Atlântica, meio ambiente | Com a tag , , , , , , , , , , | 11 Comentários

Pesquisa do Blog na Veja São Paulo desta semana

 

 

Clique em cima para ler

Clique em cima para ler

Publicado em Árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

Participe no domingo no Ibirapuera sobre as árvores de São Paulo

Venha participar nesse domingo a partir das 17 hs. no Ibirapuera, atrás do Museu Afro Brasil, do nosso bate-papo sobre as árvores da cidade de São Paulo e outros assuntos. A iniciativa é da Rádio Eldorado -

Durante os três dias da mostra, a Rede Eldorado Brasil 3000 – rádio oficial da “Viva a Mata – Mostra de Iniciativas e Projetos em prol da Mata Atlântica” –  terá um espaço para a apresentação ao vivo e gravação do “Planeta Eldorado”, com Paulina Chamorro. No estúdio montado no evento, sempre às 17h, com entrada ao vivo na programação, ela receberá, na sexta-feira (20) Mário Mantovani, diretor de Mobilização da SOS Mata Atlântica; no sábado (21), o desenhista Maurício de Souza; no domingo (22), a conversa será com a veterinária Manu Karsten, que tem um quadro no programa Domingo Espetacular, da Rede Record, e Ricardo Cardim, autor do blog Árvores de São Paulo.

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores de São Paulo | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Das 20 frutas mais consumidas no Brasil, somente 3 são nativas

O Brasil é conhecido como a “terra das frutas” graças a tamanha variedade encontrada. Não há estrangeiro que, vindo de lugares frios, não se admire com a nossa abundância de formatos, perfumes e cores. Isso é natural, como país predominantemente tropical que somos, embora inusitadamente a biodiversidade nativa brasileira não tenha quase nada a ver com o encontrado nos supermercados e feiras livres.

O “Planeta Sustentável” da Editora Abril publicou esse ano um mapa das 20 frutas mais consumidas no Brasil. São aquelas presentes em nossa alimentação cotidiana, e sua análise mostra um fato assombroso e pouco conhecido da maioria – quase todas, para ser exato 85% da lista, não são nativas dos biomas brasileiros – ou seja, não estavam aqui antes da colonização européia. Abaixo, as frutas do mapa e sua origem.

1. abacate -  América Central.

2. abacaxi – Brasil – nativa do cerrado.

3. banana – Sudeste Asiático.

4. caqui – Ásia.

5. coco-da-baía – origem polêmica.

6. figo – Ásia.

7. goiaba – Brasil.

8. laranja – Ásia.

9. limão – Sudeste Asiático.

10. mamão – América Tropical.

11. manga – Ásia.

12. maracujá -Brasil.

13. marmelo – Europa e Ásia.

14. maça – Ásia.

15. melancia – África.

16. melão – Europa, Ásia e África.

17. pera –  Europa.

18. pêssego – Ásia.

19. tangerina – Ásia.

20. uva – Ásia, América do Norte e Europa.

 

Constatado isso, pode-se pensar que não temos frutas nativas, e isso não é verdade - as temos aos milhares – a questão é cultural e de seleção de plantas. As frutas que consumimos hoje são resultado de eras de trabalho dos agricultores em selecioná-las e melhorar suas caractérísticas como sabor, tamanho e durabilidade. As nossas foram sempre relegadas à condição de curiosidade e ”mato” e, com raras exceções, poucas receberam melhoramentos como a goiaba (feita por agricultores japoneses radicados no Brasil).

Redescobrir e tornar comerciáveis nossas fruteiras é empreendimento demorado, mas valorizá-las é recuperar uma dívida histórica com nossa biodiversidade e rica herança natural, além de permitir novos sabores e valorização do meio ambiente brasileiro.

A defesa e divulgação das árvores frutíferas nativas já ocorre há muito tempo. Essa publicação do Botânico Hoehne, de 1946, apresenta diversas frutas brasileiras e traz interessantes reflexões sobre as escolhas culturais e o prejuízo causado para a preservação de nossas riquezas vegetais.

 

Ricardo Cardim

 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, árvores frutíferas, árvores nativas | Com a tag , , , , , , , , , , , , | 8 Comentários

Como evitar quedas de árvores – replantio imediato

 

 Assim como todos os seres vivos, as árvores também chegam ao final de seu ciclo de vida e morrem. Porém, quando se está dentro de uma cidade e uma árvore aproxima-se dessa fase, podem ocorrer acidentes graves com a sua queda acidental. Todos os verões na cidade de São Paulo são repletos de notícias sobre quedas de árvores e suas consequências, trazendo muitas vezes a idéia totalmente errada de que ter uma árvore em frente de casa é um “perigo”.

Para evitar essa situação, é fundamental a correta gestão da arborização urbana, onde a detecção técnica do fim da vida de uma árvore é seguida por sua substituição com um novo exemplar. Aqui mostramos o exemplo certo – uma bela sibipiruna adulta, de idade avançada, começou a apresentar uma série de sinais de risco e foi removida. Mas em seu lugar foi plantada pela prefeitura uma nova muda nativa do município cerca de uma semana depois.

É difícil para quem gosta de árvores ver uma sendo cortada, mas é racionalmente necessário quando apresenta riscos graves de queda. Um trabalho constante nesse sentido não deixa ser percebida a falta da planta, já que  teremos um equilíbrio entre os cortes e reposições, onde a qualidade de vida da cidade não é prejudicada e ainda evita-se acidentes e o desgaste da imagem das árvores perante a população.

Sibipiruna adulta em uma rua na zona oeste em 2008. Aspecto ainda saudável.

Sibipiruna adulta em uma rua na zona oeste em 2008. Aspecto ainda saudável.

Desde o começo de 2010, a árvore estava apresentando nítidos sinais de senilidade e riscos. Foi removida em abril desse ano.

 

Dentro do procedimento correto em arborização urbana, o exemplar foi substituído uma semana depois do corte.

Outro aspecto correto - foi plantada uma muda nativa da vegetação original do município - no caso, uma mirindiba (Lafoensia glyptocarpa).

 

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, arborização urbana, Árvores de São Paulo, árvore urbana, quedas de árvores | Com a tag , , , , , , , , , , | 3 Comentários

Árvores do Horto Florestal em São Paulo

Situado nas colinas dos contrafortes da Serra da Cantareira, o Horto Florestal é um dos passeios preferidos na zona norte da metrópole paulistana. Criado em 1898 pelo Botânico Albert Loefgren como local para estudos econômico e científico da flora paulista, em 1917  foi transformado em Horto.

Apresenta uma arborização interessante e diversa, com muitos  exemplares centenários rodeando os amplos lagos. A ressalva fica por conta dos carrapatos, comuns por lá, um bichinho que quem pega não esquece tão cedo, graças a intensa coceira por dias seguidos. Mas os locais onde ele aparece são bem sinalizados, e quando não há avisos pode-se andar sem problemas.

Raridade em São Paulo, o horto conserva uma floresta de araucárias adultas e de grande porte, em meio a árvores da Mata Atlântica e com trilhas que permitem fácil acesso. À esquerda um palmito jussara (Euterpe edulis) palmeira nativa que já foi comum nessas formações. As araucárias foram plantadas por volta de 1930.

 

Paisagem muito semelhante a vegetação original da cidade de São Paulo na sua fundação, no século XVI. Eram comuns os "bosquetes" ou capões de mata com araucárias entre os campos naturais, e quem estivesse em um deles e olhasse para cima veria algo como a foto. No atual bairro de Pinheiros, essa vista deve ter sido comum no passado.

 

Os saborosos pinhões das araucárias. Petisco que já foi muito apreciado na São Paulo antiga, onde quituteiras os vendiam quentes pela então vila. Os índios também os apreciavam muito, sendo parte importante do cardápio. Na foto, vemos vários com marcas do seu consumo pela fauna silvestre.

 
 

Na entrada do horto, uma bela representação da araucária (Araucaria angustifolia).

 
 

Imponente grupo de jatobás (Hymenaeae courbaril) apresentando idade. Árvore nativa que produz frutos comestíveis, mas do tipo "ame ou odeie".

 

Pinheiros-do-brejo (Taxodium distichum) originário dos EUA, tem mais de um século de vida. São muito comuns no horto, e apresentam um aspecto interessante - a presença de raízes que afloram do solo para auxiliar na respiração da árvore (pneumatóforos) já que vivem em ambientes alagados.

 

O pau-incenso (Pittosporum undulatum Vent.) é uma árvore nativa da Austrália que por aqui se comporta como invasora, ocupando o espaço da vegetação nativa. Em várias matas do horto sua presença é maciça, empobrecendo a biodiversidade original. Deve ter sido trazida a fim de ornamentar o local no começo do séc. XX.

 

 Para conhecer:

Rua do Horto, 931, Zona Norte, São Paulo – SP. Tel. 11 6231-8555

Aberto todos os dias das 6 às 18 hs, entrada franca.

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores nativas, bairro de Pinheiros, espécies invasoras | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 14 Comentários

A esquecida cultura que nomeou um viaduto em São Paulo – o chá

Flores do chá.

 

Muitos lugares na cidade de São Paulo tem o nome de plantas, lembrando que elas já foram muito mais presentes no cotidiano dos antigos paulistanos. Uma delas, de grande prestígio em todo o mundo, aportou no Brasil  no começo do século XIX – o chá – trazido da China a mando de D. João VI.

Na pequena São Paulo de 1818, José Arouche de Toledo, um homem de visão da época, trouxe furtivamente duas sementes de chá-preto (Camellia sinensis) do Jardim Botânico do Rio de Janeiro para experiências. Escolheu para área de cultivo sua chácara que ficava onde hoje é o Largo do Arouche e o Bairro da Vila Buarque, no Centro. Ali, com seus escravos, cultivou 44.000 pés de chá e dedicou-se intensivamente ao seu melhoramento e na qualidade da produção. Também testou suas sementes para produção de óleo, a fim de ser usado na iluminação da cidade, substituindo o caro óleo de baleia trazido de Santos.

Os resultados não permitiram que a cidade virasse uma grande exportadora de chá, como ele almejava, mas deixou uma marca  – o viaduto do chá – que recebeu esse nome por passar onde era parte da plantação.

Ver um pé de chá na metrópole hoje é muito difícil. Esse das fotos está no jardim didático do Departamento de Botânica da USP, e aparenta já ter idade.

 
Aspecto da planta florida dentro de uma mata.
As folhas do chá, que após processamento são a origem da bebida

 

 Ricardo Cardim 

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, História de São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , | 17 Comentários

Esta rara canela está ameaçada de desaparecer

 

E muitas outras árvores nativas da Mata Atlântica viventes no antigo terreno da família Matarazzo também. A Avenida Paulista, o cartão-postal e ”praia” dos paulistanos, que todos os finais de semana lotam suas calçadas, perderá em breve um grande espaço verde e permeável para dar lugar a outro lançamento de shopping e escritórios. Ficam as questões – para que mais? A quem interessa isso?  – A população certamente que não.

Conservando em seu interior muito verde, mesmo depois da implosão à dinamite da mansão Matarazzo de forma clandestina pelos proprietários no começo dos anos 1990, apresenta ainda árvores nativas raras atualmente na metrópole, como diversas canelas (Nectandra sp. – grande árvore de madeira nobre e frutos consumidos pelos pássaros) tapiás, embaúbas e jerivás – todas nativas e descendentes da floresta original da região – a Mata do Caaguaçú.

Na atual São Paulo, com uma quantidade ínfima de áreas verdes na malha urbana perante o número de habitantes, resultado da especulação imobiliária histórica e incessante, perder uma grande área arborizada assim é cometer mais um grave erro, e justificar o apelido de “selva de pedra ” para a metrópole – principalmente em região tão turística e frequentada. Não há compensação ambiental que diminua esse impacto local.

Em outubro de 2009 denunciamos essa possibilidade em um artigo. Pela mobilização das máquinas, se nada for feito, em breve teremos mais sombra, trânsito, calor, enchentes e menos biodiversidade, história e principalmente qualidade de vida para todos.

Máquinas e equipamentos mobilizados para começo das obras.

Folhas da canelinha (Nectandra megapotamica) - existem várias na área com grande porte - sua madeira era utilizada para a construção de casas na época dos bandeirantes - século XVII.

Jerivás - palmeiras típicas da Mata Atlântica paulistana que denominaram de "Jurubatuba" - rio dos jerivás, em tupi - o atual Rio Pinheiros. Alimenta diversos periquitos e papagaios.

 Endereço – Avenida Paulista esquina com a Rua Pamplona, no lado do Centro.

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, árvores nativas, destruição do verde em São Paulo, meio ambiente urbano, verticalização de São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , | 22 Comentários

Como saber se o cambuci está maduro?

Frutos imaturos e prontos para consumo do cambuci – difícil diferenciar.

A árvore que é símbolo da cidade de São Paulo, o cambuci (Campomanesia phaea), amadurece seus perfumados frutos no final do verão e começo do outono – justamente nessa época. Mas como sua coloração esverdeada se mantém quase imutável entre os frutos imaturos e os prontos para o consumo, fica difícil saber a hora certa.

Nos antigos relatos dos paulistanos, o momento da colheita era quando após as últimas chuvas de verão, geralmente no fim da tarde, o chão em volta da árvore ficava repleto de frutos maduros que “choviam” dos seus galhos. Outra possibilidade é observar as “quinas” do fruto. Quando está maduro, elas ficam inchadas e moles, enquanto na imatura é estreita e firme.

Infelizmente, raríssimos são os locais com cambucizeiros adultos na metrópole. Em áreas públicas conheço três exemplares – Largo do Cambuci (Bairro do Cambuci), Jardim Botânico de São Paulo e na Cidade Universitária da USP – de onde vieram os frutos das fotos. De sabor levemente azedo, o cambuci é ótimo para receitas doces e salgadas, além de excelente para curtir cachaça, um uso muito querido no passado.

Suas sementes não são fáceis de germinar, mas vamos tentar com a colheita desse ano. Para os amigos das árvores, hoje suas mudas são encontradas em grandes lojas de jardinagem e no CEAGESP, e plantá-las ajuda a reequilibrar nosso meio ambiente urbano e resgatar a cultura, biodiversidade e história paulistana.

Na esquerda o fruto imaturo, com suas quinas estreitas, diferentes do maduro, com elas bem inchadas.

 

Ricardo Cardim

Publicado em Árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores frutíferas, árvores nativas | Com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , , | 11 Comentários

Natureza paulistana

Em um das áreas com maior atividade da construção civil na metrópole paulistana - os arredores do Shopping Morumbi - um joão-de-barro construiu sua casa sobre um alfeneiro (Ligustrum sp. - Japão). A foto mostra um paradoxo interessante da natureza urbana e sua resistência. Essa árvore fica quase isolada em meio aos grandes descampados para a edificação das torres de escritórios, repleto de barulhos e poeira pela obras, e mesmo assim, o passarinho escolheu ali para viver. Coisas de São Paulo.

Publicado em árvores, Biodiversidade paulistana | Com a tag , , , , , | 10 Comentários

Últimos tarumãs-do-cerrado na metrópole frutificam

 

Uma árvore frutífera típica das formações de cerrado e que habitava a área onde hoje está a cidade de São Paulo, o tarumã-do-cerrado  (Vitex polygama) sumiu com a ocupação de seu habitat natural pela urbanização. Da sua população natural, selecionada por eras nas condições paulistanas, sobreviveram somente dois exemplares conhecidos dentro da malha urbana, ambos no Parque de Campo Cerrado Alfred Usteri - Jaguaré (Zona Oeste).

Desde o final de 2009, quando os encontrei, venho acompanhando-os e não ocorreu frutificação em 2010. Porém, em dezembro passado a árvore cobriu-se de milhares de flores lilazes, e agora em março está carregada de frutos pretos, parecidos com azeitonas e comestíveis. De sabor doce e que lembra a uma ameixa, já foram muito queridos pelos antigos índios habitantes da região, assim como ainda são pelos pássaros.

Bela floração em dezembro de 2010

Frutos

Frutos de tamanho e cor semelhantes a azeitonas portuguesas

Com polpa úmida e de sabor que lembra ameixa-preta, o caroço é pequeno.

A reprodução desses remanescentes que conservam a genética desta antiga população é urgente, assim como sua reintrodução na cidade. Pretendo agora estudar a germinação e formar suas mudas em nosso viveiro “informal”, assim como já conseguido com o araçá-do-campo (Psidium guineense), língua-de-tucano (Eryngium horridum) e o barba-de-bode (Aristida sp.) – todos quase extintos em estado nativo na metrópole.

Se tudo der certo, depois serão plantados pela cidade e poderão voltar a ocupar sua “casa” original, ajudando a resgatar nossa biodiversidade nativa e história. E ainda é uma árvore ótima para calçadas estreitas e fiação aérea graças ao seu pequeno porte.

 

Ricardo Cardim

Publicado em amigos das árvores de São Paulo, Árvores históricas de São Paulo, árvores frutíferas, árvores nativas, Biodiversidade paulistana, campos cerrados em São Paulo | Com a tag , , , , , , , , , , , , | 8 Comentários