Compensação ambiental, obras e a biodiversidade – Análise

 
 ‘Preservação não deve considerar apenas árvores’
 
Especialista analisa proposta da USP de criar reservas para preservar vegetação de cerrado
 
Ricardo Cardim* – O Estado de S. Paulo
 

Como podemos avaliar o valor da vegetação urbana? Essa pergunta é respondida na legislação ambiental considerando um fator básico, o tamanho da planta, que geralmente corresponde a árvores. Se pensarmos somente nos serviços ambientais, essa linha de pensamento é correta. Afinal, quanto maior o porte, maiores os serviços ambientais. Entretanto, em um país megabiodiverso como o Brasil, esse pensamento é no mínimo perigoso.

São Paulo, assim como outras cidades brasileiras, herdou um vasto patrimônio de fauna e flora, de grande biodiversidade, onde originalmente milhares de espécies conviviam em complexas interações ecológicas em diferentes paisagens como a Mata Atlântica, campos-cerrados, capões de araucárias e várzeas. Passados quase 500 anos de colonização, pouco sobreviveu dessa natureza ancestral, principalmente aquelas formas de vida que não apresentavam a beleza óbvia de uma grande árvore ou o esplendor da floresta tropical.

Um caso emblemático são os campos nativos, tipo de cerrado que nomeou a metrópole nos seus primeiros tempos de São Paulo dos Campos de Piratininga. Formada em sua maioria por arbustos e ervas de diferentes espécies, essa rica vegetação de estatura baixa segue desconhecida da maioria, relegada ao título de “mato”. Entretanto, dentro do contexto ecológico e histórico, suas plantas podem ter o mesmo valor que uma figueira centenária. Exemplos são as espécies sobreviventes nos cerradinhos da Universidade de São Paulo (USP), como o murici-do-campo, fruta-de-pomba, língua-de-tucano e muitas outras, que já ocuparam extensas áreas do Município e hoje estão restritas a populações ínfimas.

Detentoras de genética resultante da evolução milenar com as condições locais, plantas assim não são substituíveis por árvores ou exemplares de mesma espécie de outras regiões, sendo formações únicas que devem ser preservadas a todo custo para essas e as futuras gerações. É urgente mudarmos a concepção de que somente árvores são passíveis de valoração ambiental, sob pena de prosseguirmos com a perda de inúmeros tesouros vegetais desconhecidos. No Brasil, a biodiversidade deve ser uma premissa fundamental para o licenciamento de obras e suas diretrizes ambientais.

A USP acerta quando promove a criação de reservas para os últimos testemunhos dos antigos Campos do Butantã, onde se assenta originalmente o seu câmpus. Tombados e abertos ao público, esses campos-cerrados poderão ser considerados museus vivos da história, cultura e botânica paulistanas.

 

* É AMBIENTALISTA

 

Sobre Ricardo Cardim

www.arvoresdesaopaulo.com.br
Esse post foi publicado em Biodiversidade paulistana, Botânica, campos cerrados em São Paulo, destruição do verde em São Paulo, meio ambiente urbano em São Paulo, verticalização de São Paulo e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Compensação ambiental, obras e a biodiversidade – Análise

  1. Leda Lucas disse:

    Como tem valido a pena o seu trabalho; né, Cardim?! Muita toda força. Abraço.

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