Os capins nativos de São Paulo estão quase extintos

Com menor capacidade de chamar a nossa atenção comparado as árvores, o capim sempre foi esquecido dentro do contexto normal de “preservação ecológica”, sendo relegado mesmo ao pejorativo “mato” até por quem gosta de natureza.

Triste injustiça que não deixa reparamos um fato muito sério e comum na cidade de São Paulo como em vários outros lugares – a quase extinção das espécies nativas de capins, substituídas pela competição desigual das espécies estrangeiras invasoras, que são comumente usadas em pastos para pecuária e forração de taludes. Como resultado, a outrora enorme variedade de capins nativos foram substituídas por duas principalmente, o capim-braquiária (Brachiaria sp.)  e o capim-gordura (Melinis sp.), ambos de origem africana.

Quando a cidade de São Paulo ainda era uma vila sobre a colina entre o rio Anhangabaú e Tamanduateí, tanto os “Campos de Piratininga” quanto as extensas várzeas, apresentavam inúmeras espécies diferentes de capins, como o ornamental barba-de-bode (Aristida sp.) e o rabo-de-burro (Andropogon sp.). Hoje, ver uma touceira do barba-de-bode, considerado “praga” pelo Botânico Alfred Usteri em 1911, é coisa digna de gincana na metrópole. Afogado pelos exóticos, sobraram alguns no Parque Usteri, Cidade Universitária e Pico do Jaraguá. Dentro dos campos cerrados que preservamos na Universidade de São Paulo, só depois de muitas roçadas é que ele voltou a dominar sobre o braquiária e gordura.

O preocupante sobre esse tipo de biodiversidade esquecida é que a atenção pode chegar tarde demais, quando mais nada nativo sobrar.

O africano capim-braquiária (trazido para o Brasil em 1970) infestando área de campos cerrados no Parque Usteri, Zona Oeste, sem deixar espaço vital para os capins nativos e outras plantas.

 

Outro invasor forte, o capim-gordura (África), recobrindo área de cerrado na Cidade Universitária. Ele chega a "escalar" arbustos de até 1,5 metro, afogando-os na sua sombra.

  

O paulistano capim barba-de-bode, quase desaparecido, sobrevivente em poucos lugares da metrópole. Esse da foto foi liberado da braquiária pelo nosso manejo na área da USP.

 

Algumas vezes o capim rabo-de-burro (pelo formato de suas inflorescências semelhantes a cauda desse animal) forma populações em meio aos estrangeiros. Esses estão no Parque Usteri, na Zona Oeste.

  

Dentro do viveiro "informal" da ação Amigos das Árvores de SP, reproduzi tanto o barba-de-bode quanto o rabo-de-burro de matrizes sobreviventes da genética ancestral paulistana. Poderiam ser usados no paisagismo, no lugar de "cópias" estrangeiras, como o capim-do-texas.

 
 
 
 
 
Ricardo Cardim 
 
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Sobre Ricardo Cardim

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15 respostas para Os capins nativos de São Paulo estão quase extintos

  1. Rafael De Sordi Zanola disse:

    Olá Ricardo, boa tarde.

    Sabe onde posso adquirir capins nativos sem ser “enrolado” pelo vendedor? Por não conhecer o fenótipo, tenho medo de comprar gato por lebre, entende?

    Obrigado, um abraço.

    • Ricardo Cardim disse:

      Rafael, infelizmente não conheço quem os venda… Aliás se souber, por favor me avise!

      abs

  2. ALDO L SILVA disse:

    EXCELENTE PERCEPÇÃO! PENA QUE SOMENTE DAQUI HÁ ALGUMAS DÉCADAS VÃO REALMENTE ENTENDER O QUE ESTÁ DEFENDENDO…

    ALDO

    • Ricardo Cardim disse:

      Valeu Aldo, mas temos que lançar as sementes mesmo que demorem…

      abs

  3. Luciana disse:

    Me lembro das touceiras de barba-de-bode nos “matos” da minha cidade natal, ali na região de Ribeirão Preto. Eu era pequena e as achava tão bonitas e queria plantá-las no jardim. Havia outros capins que nunca mais vi. Hoje a paisagem mudou, eles se foram e só há Brachiaria por todos lados. Dá até desgosto…

    • Ricardo Cardim disse:

      é Luciana, pena que as pessoas não tenham a sua percepção… essas plantas nativas menores estão fadadas ao desaparecimento, já que não tem o apelo visual de uma árvore.

      abs

  4. Carlos Humberto Pereira disse:

    Aqui na região do meu município, interior do estado de São Paulo, o bioma nativo é o cerrado e o capim-rabo-de-burro ainda é visto com certa frequência, mas o barba-de bode que era praga há uns 50 anos atras virou raridade. Só é encontrado nas raras áreas virgens de cerrado.
    E uma observação: existe uma espécie muito parecida com o capim-rabo-de-burro, ela é um pouco menor, esta foto deste site está me parecendo ela e não o Andropogon bicornis.

    • Carlos,

      Obrigado, poucos observam o sumiço de nossos capins nativos! Com relação a espécie de Andropogon, acho que só um taxionomista de gramíneas para nos ajudar… mas vou dar uma olhada

  5. ANGELA disse:

    Quero formar um pasto com capins nativos. Sabe quais os animais que comem o capim barba de bode? Pode me informar outros nomes de capins nativos que eu poderia usar? Obrigada, e parabéns pelo trabalho.

  6. LUISA disse:

    Adorei os comentários adoro a natureza,onde moro litoral tem varios tipos de capins.Vou passear com meu filho que faz o curso Eng.Agronomo fico facinada de tanta coisa que podemos preservar .

  7. Wande disse:

    Muito bom seu comentário sobre capim nativo. Você pode indicar algum livro ou mesmo site que trate de capim nativo?

  8. junior disse:

    a cerca de uns 20 anos , agente nem mesmo se dava conta de tanto capin barba de bode no interior de são paulo, eu mesmo achava uma praga , e como vc mesmo disse , deve estar em extinção. outro dia fazendo o meu percurso de bike eu vi na linha do trem uma pequena moite deste capin e não demorou , fui la e arrancai e re plalntei em minha chacara, estou feliz. o

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