Os poucos redutos de florestas nativas da cidade de São Paulo estão ameaçados por um inimigo poderoso, que avança sem alarde e disfarçado de muita beleza. Disseminado pela avifauna, a palmeira seafórtia (Archontophoenix cunninghamii) vem ocupando o espaço nas matas que antes era das árvores paulistanas nativas.
A primeira vista, para o observador leigo, pode parecer que sua presença maciça no sub-bosque da floresta, seu local preferido, é absolutamente normal, dando o aspecto de floresta tropical densa tão característico à Mata Atlântica.
A exploração predatória por séculos do nosso tão apreciado palmito – jussara (Euterpe edulis), antigo ocupante tradicional dessa faixa da vegetação em nossas matas, propiciou, entre outros fatores, a substituição por essa palmeira seafórtia, que encontrou aí seu lugar favorito.
Originária da Austrália, atinge alturas de oito a dez metros, e formam populações quase homogêneas, graças aos seus pequenos frutos, de coloração vermelho-vivo, que atraem a passarada e possibilitam que as matas freqüentadas por eles sejam “bombardeadas” pelas sementes contidas nos frutos.
Na reserva florestal da Cidade Universitária (USP), pode-se observar um tapete de pequenas plântulas no chão da floresta e palmeiras de todos tamanhos e idades. Diversas discussões e propostas de controle da espécie são debatidas, afim de que a mata tenha sua perpetuação o mais próximo do original garantida, sem a competição feroz da espécie às nossas plantas nativas.
Porém, sua eliminação, embora pareça uma medida fácil de realizar, pode constituir-se em um sério problema para a avifauna paulistana que tem seus frutos redondos no cardápio. Sua erradicação completa parece não ser o ideal enquanto não existir ou for implantado espécies semelhantes na mata, que preencham a lacuna alimentar.
Ricardo Henrique Cardim
Amigos das Árvores de São Paulo







3 comments
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Setembro 9, 2008 às 4:03 pm
A impressionante propagação das árvores urbanas pelos passáros « Árvores de São Paulo
[...] a palmeira seafórtia (Archontophoenix cunninghamii) já foi descrita em um artigo anterior “Palmeira-seafórtia – Uma invasão silenciosa em São Paulo” e aqui mostra toda a sua grande capacidade de adaptação a situações extremas. [...]
Outubro 28, 2008 às 8:59 pm
O palmiteiro, uma planta quase extinta na cidade de São Paulo « Árvores de São Paulo
[...] Dentro da parte urbanizada da Cidade, os remanescentes de mata já não apresentam palmiteros nativos, e na sua falta, seu espaço foi ocupado pela oportunista palmeira-seafórtia, de origem australiana, que encontrou aí seu nicho ideal para viver e se disseminar, já que as aves adoram seus frutos assim como os do palmiteiro e os espalham ver artigo anterior sobre o tema. [...]
Novembro 9, 2008 às 8:13 pm
denise goulart
a prefeitura de minha cidade (Itu, interior de SP) está empenhada em plantar palmeiras por todo lado. Por intuição apenas, pois não sou conhecedora de plantas, acho que é um grande erro. As palmeiras não dão frutos que possam interessar aos pássaros daqui, não dão sombra, imagino que roubem muito da pouca água que conseguimos armazenar na cidade e, pelo seu porte, tornam-se perigosas em dias de vento forte, comuns à região. Além de serem horrorosas, pois parecem postes com franjas. Gostaria de uma opinião de vocês sobre plantio sistemático de palmeiras pelas ruas de uma cidade.